7 de julho de 2015

Artigo: A greve foi suspensa, a luta não

7/7/2015 - Por Cleusa Trindade, Edinoel Carvalho e Marcileni da Mota
Foram 92 dias de greve do magistério paulista. O professorado se levantou em todo o estado contra as péssimas condições de trabalho, baixos salários, as demissões de professores categoria “O” e a superlotação das salas de aula que impedem a qualidade da escola pública e condena milhões de alunos a um ensino abaixo de suas necessidades e potencialidades.

A greve teve o mérito de desmascarar as políticas educacionais do governador Geraldo Alckmin, que em 2015 reduziu em mais de R$ 1 bilhão as verbas das escolas públicas, seguindo a política de cortes de gastos públicos da presidente Dilma Rousseff, que reduziu em R$ 7 bilhões as verbas destinadas ao MEC (Ministério da Educação e Cultura. Nesse mesmo período e com reivindicações semelhantes, outros dez estados também realizaram greves de professores, deixando claro que o descaso com a Educação ocorre em todo o país.

Foram duros ataques ao direito de greve, como ações judiciais para que fossem proibidas a veiculação de propaganda que chamavam os pais a apoiarem nossa luta, não enviando seus filhos à escola e, também, para tentar impedir atos de rua, multando o sindicato. Repetiu-se o costumeiro assédio moral para intimidar os docentes que queriam entrar em greve.

E, principalmente, o corte de ponto, procurando asfixiar economicamente o movimento, mesmo sabendo do compromisso dos grevistas com a reposição das aulas.

E, agora, após o encerramento da greve, essa postura antidemocrática se repete no debate sobre a reposição de aulas. Diretores de escola, que colocaram professores eventuais no lugar dos grevistas, não querem permitir que tais aulas sejam repostas.

Na quase totalidade dos casos, esse professor eventual não tinha a qualificação para a disciplina objeto e não cumpriu com a proposta curricular. Além disso, foram vários os professores eventuais para uma mesma disciplina de uma determinada classe. Muitos diretores lançaram “5,0” ou “7,0” e zero falta para os alunos, no 1º bimestre, mesmo sem aula e sem avaliação, num total desrespeito aos estudantes, no período da greve.

Tal atitude é inaceitável. Os alunos têm o direito aos conteúdos, habilidades e competências que deveriam ter sido ministrados durante os três meses que durou a greve e ninguém melhor do que o professor titular da disciplina para tal. Os professores grevistas sempre afirmaram esse compromisso. Não pode o governo privilegiar punição aos grevistas em detrimento dos direitos dos estudantes.

Não obstante, apesar de afirmar que “determinação judicial não se discute, se cumpre” — por ocasião de um episódio que chocou toda a sociedade, a “desocupação do Pinheirinho”–, agora o governador já tem recorrido em todas as instâncias para não pagar o salário descontado dos professores, apesar de a justiça tê-lo determinado várias vezes, sendo que desta vez o ministro Ricardo Lewandowski, do STF (Supremo Tribunal Federal), considerou que cortar o pagamento dos grevistas é cercear o direito de greve. Entretanto, o governador Geraldo Alckmin ignora.

As principais reivindicações não foram atendidas, apesar de ter sido esta a mais longa greve dos professores estaduais de São Paulo.

Mesmo assim, os professores continuarão na luta contra os ajustes fiscais dos governos Dilma e Alckmin, contra a retirada de direitos da classe trabalhadora e por uma educação pública, gratuita e de qualidade para todos os filhos da classe trabalhadora.

Por Cleusa Trindade, Edinoel Carvalho e Marcileni da Mota
Professores da rede pública de ensino oficial do Estado de São Paulo
Artigo publicado no jornal O Vale, de 7 de julho de 2015


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