2 de setembro de 2015

Economia mundial: A China anuncia sua entrada no clube dos países em crise

2/9/2015 - Por Marcos Margarido, da LIT-QI

A instabilidade das principais bolsas de valores da China (Shangai e Shenzhen) parece não ter fim. Depois da queda de 32% em apenas 17 dias em junho e julho, o dia 24 de agosto ficou marcado como o de maior queda da bolsa de Shangai (8,5%) em apenas um dia desde 2007, quando se iniciava a crise econômica mundial que se arrasta até os dias de hoje. O resultado foi a queda generalizada das bolsas em todo o mundo.

O Diário do Povo, jornal do Partido Comunista da China (PCCh), chamou este dia de “segunda-feira negra”, uma denominação racista inaceitável, num país onde 100% da burguesia do país e de membros do governo – os causadores da queda das bolsas – é branca.
Ao contrário do que a imprensa mundial tenta mostrar – o de um dia ruim para as bolsas – há pelo menos dois meses a ditadura chinesa vem desenvolvendo esforços para salvar o mercado de ações. O governo conseguiu reduzir a sangria em 9 de julho, depois da intervenção de corretoras financiadas por bancos estatais e a compra maciça de ações das estatais por elas próprias (ver matéria neste site: Queda das bolsas chinesas aprofunda contradições da economia do país), mas não impediu que o mau desempenho da economia chinesa continuasse a influenciar o valor das ações negociadas. No total, estima-se que o governo injetou US$ 300 bilhões para tentar estabilizar as bolsas, apenas para vê-las cair de forma ainda mais violenta.

Os chamados países emergentes são muito afetados
Se em julho, erroneamente, a imprensa afirmava que o problema era localizado e que não afetaria o mercado mundial, dessa vez não há como tapar o sol com a peneira. O valor das matérias primas (commodities) compradas pela China (com a exceção de alimentos) caiu vertiginosamente. Foi a maior queda de preços desde 1999, o prelúdio de outra crise econômica, que teve início em 2001.

Com isso, os países exportadores destas mercadorias veem uma de suas principais fontes de receita diminuir o que vai aprofundar a crise econômica que bate forte em países, como o Brasil, Rússia e a África do Sul, e pode ser o início em outros, como a Indonésia, Colômbia e Austrália. Na Indonésia, o carvão se acumula nos portos e até produtos como óleo de palma sofrem com a queda da importação pela China. Na África do Sul, as mineradoras de ouro, platina e ferro estão demitindo.

A mineradora Lonmin, por exemplo, anunciou a demissão de 6 mil trabalhadores até 2017, 20% de sua força de trabalho. A receita da Vale, a maior produtora de minério de ferro do mundo, caiu 29,7% no segundo trimestre de 2015, devido à redução da demanda, e agora deve cair ainda mais devido à queda dos preços. A Rússia, que vive uma forte crise causada pela queda dos preços do petróleo – sua principal fonte de divisas estrangeiras – e que havia girado sua economia para o fornecimento do produto à China, devido ao embargo econômico europeu e norte-americano, vê sua situação piorar. Na Tailândia, a exportação de borracha para as fábricas de pneus chinesas caiu 20% em relação a 2014.

Países dependentes cada vez mais pobres
Como consequência da queda do comércio, as moedas dos países semicoloniais sofreram uma desvalorização tremenda em relação ao dólar. Em outras palavras, as nações dependentes economicamente do imperialismo – principalmente o norte-americano – ficam mais pobres em relação às nações ricas.

Apenas a desvalorização da moeda chinesa, o yuan, causou uma perda estimada em US$ 5 trilhões (Eonomist, The greatfallof China, 29/08) nos mercados de ações. Na Rússia, o rublo desvalorizou quase 100% em relação a um ano atrás, enquanto no Brasil o real já caiu quase 36%. A rúpia, moeda tailandesa, caiu 12,5% e o peso mexicano, 23%. Até países considerados estáveis, como a Colômbia, viram sua moeda – o peso colombiano – despencar 60% (todas as quedas medidas em relação ao dólar).

Isto significa que os produtos destes países ficam mais baratos em relação ao dólar, facilitando a exportação. Mas não só os produtos, mas também as fábricas que os produzem, os imóveis, os recursos naturais, os bancos, etc. A desvalorização das moedas também leva a um aumento da inflação e, com isso, à diminuição do poder de compra dos assalariados.

O resultado é que as nações dependentes ficam ainda mais vulneráveis ao imperialismo, pois suas multinacionais podem aproveitar a oportunidade para fazer “bons negócios” com a compra de patrimônios nacionais a preços bem menores em dólar, levando à desnacionalização ainda maior das economias destes países e à maior concentração e centralização do capital, uma das formas do capitalismo resolver suas crises financeiras.

O outro lado da moeda é o aumento da exploração dos trabalhadores, pelo roubo cometido com aumento da inflação devido à desvalorização das moedas. Essa é outras das formas encontradas pelo capitalismo para resolver suas crises econômicas. O que vemos, então, é o aumento da dependência dos países coloniais e semicoloniais ao imperialismo e uma maior exploração dos trabalhadores.

Fim da ilusão na China
O Wall Street Journal, porta-voz do capital financeiro dos EUA, exprimiu dessa forma a turbulência causada pela queda das bolsas chinesas: “China deixa de ser a salvação e vira ameaça à economia mundial” e explica que “as dificuldades do governo chinês nos últimos meses levaram muitos investidores a ver a China como uma ameaça, não uma salvação, para a economia global. Durante a crise financeira de 2008 e 2009, a China atuou como um amortecedor de choques graças a um colossal plano de estímulo. Recentemente, porém, é a China que tem provocado choques”.

Em outras palavras, a galinha dos ovos de ouro está parando de botar. Mas a falta de raciocínio lógico dos mentores do imperialismo é impressionante. Pois foi justamente o “colossal plano de estímulos” de 2008/2009 que causou a atual queda da economia chinesa e sua provável entrada no clube dos países em crise (já se fala em uma redução de 7% para 5% no crescimento do PIB em 2015 e há quem afirme - Economist – que o crescimento real é de 2-3%).

A injeção de bilhões de dólares feita pelo governo chinês em 2008 impediu que a crise econômica mundial, que dava seus primeiros passos, atingisse o país naquele ano, mas apenas para adiar os problemas e não resolvê-los. Isso se deu porque foram feitos investimentos em infraestrutura– capital improdutivo - pelo estado ao mesmo tempo em que as lutas dos operários forçaram o governo a garantir aumentos do salário mínimo (recebido pela grande maioria dos trabalhadores em empresas privadas) acima da inflação desde então.

Apesar do aumento da produção, os aumentos salariais impediramque a burguesia chinesa conseguisse  um aumento da taxa de exploração de seus operários (aumento da taxa de mais-valia). O resultado foi uma superprodução das mais variadas mercadorias, mas principalmente aquelas necessárias ao setor da construção de imóveis, que agora vem dando mostras de esgotamento. Não apenas a taxa de lucros não aumenta, mas também o lucro começa a baixar. O próprio Wall Street Journal afirma que a “velha receita de contar com investimentos do Estado e as exportações também têm perdido eficácia. As exportações caíram 8,3% em julho em relação a um ano antes, as encomendas das fábricas secaram e o início de novas construções caiu 16,8% nos primeiros sete meses de 2015”.

A receita apregoada pelo imperialismo é uma só: reformas para abrir o país (ainda mais) ao capital estrangeiro, isto é, venda de estatais, abertura do capital dos bancos estatais à entrada do capital financeiro privado, igualdade de “competitividade” entre as empresas estatais e as privadas, privatização da terra, etc. Isto é, a entrega do que ainda resta de propriamente nacional ao domínio imperialista. A desvalorização do yuan cai como uma luva para se conseguir isso.

Isso mostra o quão frágil é um dos argumentos de setores da esquerda frente à expansão da economia chinesa: aquele país teria se transformado em imperialista em busca de novos mercados (África, América Latina) e uma guerra vitoriosa contra os EUA poderia firmá-lo como o imperialismo mais poderoso do planeta. Na verdade, o comportamento dos dirigentes do PCCh é típico de qualquer país economicamente dominado pelo imperialismo pelo resto do mundo. E, ao que parece, a relativa autonomia política do governo de Xi Jimping vai aos poucos se esvanecendo.

De que crise se trata?
Os principais jornais dos países imperialistas dizem que os problemas da economia chinesa se devem à “falta de governança” e que “o mundo está começando a concluir que a China não é tão competente quanto parecia, principalmente na esfera econômica”. Na verdade, os dirigentes chineses seguiram à risca as determinações do FMI para transformar seu país numa “economia plena de mercado” e o que os impediu até agora é a continuidade da crise econômica mundial e a luta da classe operária chinesa, que se mostrou muito mais resistente do que os dirigentes do PCCh imaginavam e não se deixa explorar facilmente.

O que os economistas burgueses teimam em não enxergar é que a “crise financeira mundial de 2008 e 2009” se mantém até hoje, não acabou em 2009, e que o alívio de 2013 e 2014 sentido pelos principais países imperialistas (crescimento nos EUA, Inglaterra, Alemanha, França) não passa disso: um alívio, ou uma breve expansão econômica em alguns países imperialistas acompanhada pela entrada em crise de países semicoloniais, principalmente as submetrópoles do imperialismo (Brasil, África do Sul, Rússia).

Portanto, a crise das bolsas que afeta a China hoje não é uma particularidade chinesa e nem ficará restrita àquele país e aos países exportadores. Significa, em primeiro lugar, a entrada da mais importante submetrópole do imperialismo, a China, na onda descendente da economia. E pode significar – embora seja cedo para uma posição afirmativa – o fim da breve onda de expansão nos países imperialistas. Alguns já vêm dando sinal desta possibilidade, como a Alemanha e a Inglaterra, que tiveram um crescimento em 2014 igual ao de 2013 (1,6% para a Alemanha em 2,6-2,7% para a Inglaterra). Os Estados Unidos cresceram 3,1% em 2014, contra 2,4% em 2013 (todos dados são do FMI), mas a previsão para 2015 é de estagnação.

O que estamos assistindo, portanto, é a manutenção de uma onda longa descendente de contração da economia, com seus altos e baixos, com períodos de expansão curtos e localizados seguidos de novos períodos de contração, em geral mais longos e profundos. Como sempre acontece nestes períodos históricos, a última palavra será dada pela luta de classes e não pelos ministros da fazenda.

Marcos Margarido, da LIT-QI