12 de março de 2014

Aumento da violência machista no mundo revela o aprofundamento da barbárie capitalista


12/3/2014 - As mulheres são metade da classe trabalhadora e estão cada vez mais inseridas na produção mundial. As mulheres representam hoje 51,1% da força de trabalho no mundo. Também avançou a escolarização das mulheres e em alguns países já são maioria no ensino superior, como EUA, Irã e Brasil.

Mas todos os dados que mostram a maior inserção das mulheres no mundo do trabalho e também no mundo escolar vêm acompanhados dos dados de que a desigualdade econômica entre homens e mulheres persiste e a violência contra as mulheres em todos os sentidos aumenta em todos os continentes.

O número de mulheres que vivem na pobreza é muito superior ao de homens: 70% dos pobres do mundo são mulheres. Os salários das mulheres chegam a representar 70% do total dos salários dos homens. As mulheres estão nos piores empregos, nas funções que ganham menos, nas funções terceirizadas, precarizadas e informais. A classe trabalhadora se feminizou e, ao mesmo tempo, foi empobrecida e super-explorada.

Com a abertura de uma nova crise econômica mundial, a partir de 2008, esta situação se agravou ainda mais, com os planos econômicos de austeridade, de corte de direitos como aposentadoria e de todos os cortes e privatizações que sofreram os serviços públicos em geral como saúde e educação.Estes planos, aplicados pelos países imperialistas, resultaram em mais miséria e vulnerabilidade às mulheres da classe trabalhadora. Além disso, direitos reprodutivos como a legalização do aborto, que haviam sido conquistado na década de 70, estão sendo atacados em países como EUA, Espanha e Portugal.

As mulheres também continuam morrendo na gravidez e no parto. O índice de mortalidade materna chega a 500.000 mulheres a cada ano.Procedimentos simples como pré-natal e parto são negligenciados pelos sistemas de saúde públicos que sofrem com a falta de investimentos. Neste caso, são as mulheres trabalhadoras e pobres que morrem, pois são as que dependem exclusivamente dos sistemas de saúde oferecidos pelos Estados. No Brasil, 70% dos usuários do SUS são mulheres.

O aumento da violência machista no mundo
A recente pesquisa apresentada pela Agência de Direitos Fundamentais da União Europeia (2014), uma das mais completas realizadas até agora no continente, pois registra a extensão da violência nos 28 países do bloco, aponta o dado chocante de que que 62 milhões de mulheres europeias já sofreram violência machista. Significa que uma a cada três mulheres já foram vítimas de violência física e sexual.Este dado confirma a pesquisa da Organização Mundial de Saúde, realizada em 2013, que indicava o mesmo índice, só que na escala mundial. É considerada pela OMS, uma realidade de proporções epidêmicas.

A Índia, país considerado pelo sistema econômico mundial como “emergente” no critério de desenvolvimento, talvez seja o exemplo mais gritante de como o chamado “desenvolvimento” econômico capitalista convive perfeitamente com as formas mais bárbaras de degradação humana.Lá, a cada 20 minutos, uma mulher é estuprada. Somente 1 em cada 50 casos é relatado à polícia que, na maioria das vezes, culpa a vítima. Muitas mulheres  são vítimas dos chamados estupros de gangue, em que vários homens atacam ao mesmo tempo.

O caso de Nirbhaya, a estudante de 23 anos que foi estuprada por seis homens em um ônibus de Nova Déli, em dezembro de 2012, ganhou repercussão mundial pela onda de protestos que gerou no país e pelo grau de barbárie. Porém, no cotidiano, os estupros e mortes continuam ocorrendo sem que o governo tome medidas efetivas de combate.

Na Índia, ainda existe o casamento por dotes, no qual os pais, para casar as filhas, precisam pagar um dote aos futuros maridos. Em 2012, houve 8.618 "mortes por dote", ou seja, assassinatos de mulheres quando não há pagamento do dote ou o valor é considerado muito baixo e o homem quer casar de novo e obter um dote maior.

Mas além dos estupros seguidos de assassinatos, as agressões sexuais são constantes e são julgadas como crimes de menor gravidade por não envolverem a penetração (No Brasil, a legislação mudou desde 2009 para a consideração de estupro qualquer ato sexual não consentido, independente de ocorrer a penetração). Práticas comuns de humilhação de mulheres na Índia, como jogar ácido no rosto e despir e bolinar mulheres em público, são "ultraje à decência", considerados de menor gravidade e com pena de apenas dois anos. Foi assim o caso de uma menina de 16 anos que foi despida por dez homens que desfilaram com ela nua e a bolinaram em público.

A culpabilização das mulheres vítimas de violência é o que chama mais atenção, tanto vinda do próprio governo quanto por religiosos como o guro Asaram Bapu que disse que a mulher violentada deveria ter chamado os agressores de irmãos e implorado para que eles parassem.

No Brasil, os estupros também aumentaram. De acordo com o estudo-produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, com base em informações do IBGE e do Ministério da Justiça, o país registrou 50.617 casos de estupros em 2012, o que equivale a 26,1 estupros por grupo de 100 mil habitantes. O aumento é de 18,17% em relação a 2011, quando a taxa foi de 22,1 por grupo de 100 mil.

O Brasil é o 7º país em índices de feminicídio. Morrem 15 mulheres por dia, vítimas da violência machista, sendo que a 2 minutos uma mulher é espancada. Os dados mostram que esta violência aumenta. Em 1980, eram 2,3 morte para cada 100 mil e, em 2010, foram 4,6 mortes para 100mil, segundo o Mapa da Violência. A maioria destas mortes ocorrem no ambiente doméstico.

O turismo sexual e o tráfico humano também é uma forma corrente de exploração e de violência contra as mulheres no mundo. Cerca de 200.00 adeptos do turismo sexual, vasculham países pobres em busca de corpos baratos de mulheres e de crianças. Por trás, estão poderosas organizações criminosas.

Se os dados da violência, com muita dificuldade, são possíveis de serem quantificados, as sequelas e consequências psicológicas que o aumento da violência gera entre as mulheres é impossível de calcular. As mulheres perdem a confiança em si mesmas, sofrem de depressão, ataques de pânico e ansiedade, sentimentos de culpa e vergonha, além de produzir o medo de andarem nas ruas e de ocuparem os espaços públicos.

Enquanto aumenta a violência contra as mulheres, a política do imperialismo, através dos organismos internacionais como a ONU, é o discurso vazio do empoderamento das mulheres. Enquanto a ONU recomenda milhares de “receitas democratizantes” para a igualdade, para que as mulheres conquistem mais postos de trabalho e de chefia da sociedade, a política econômica do imperialismo continua sendo a de massacrar os povos do mundo com a dependência econômica dos países e a sucção das riquezas para os grandes bancos e corporações internacionais.

A ONU abriu, neste dia 09 de março, em comemoração ao dia da mulher, a 58ª Comissão sobre o Status da Mulher (CSW) que fará uma avaliação até 2015 se a Plataforma de Ação de Pequim (realizada em 1995) está dando resultados. É comum se utilizarem de alguns poucos dados positivos como o aumento da escolaridade ou o acesso ao mercado de trabalho, para mascarar a realidade que aponta para a piora da vida das mulheres, principalmente as pobres e trabalhadoras. Até lá serão muitos os discursos e eventos que tentarão iludir o mundo de que as condições das mulheres está melhorando.

Infelizmente, o imperialismo conta com aliados para a aplicação de suas políticas, como o governo Dilma no Brasilque faz o discurso da igualdade para as mulheres, mas prioriza a Copa da FIFA em detrimento dos investimentos para a aplicação e ampliação da Lei Maria da Penha. Além disso, Dilma mantém em sua base de apoio grupos religiosos fundamentalistas que defendem o “Estatuto do nascituro”, a “cura gay” e outras leis que atacam ainda mais os direitos das mulheres e LGBTs.

O que vemos é o aumento da contradição entre a sanha capitalista, que por um lado se aproveita da entrada em massa das mulheres no mercado de trabalho e no mercado consumidor para aumentar a exploração e o lucro e, por outro lado, a perpetuação da ideologia machista seja com as instituições conservadoras como as igrejas, ou com roupagens mais modernas, como a teoria do empoderamento e da multimulher que é capaz de se desdobrar em três para garantir o sustento da casa e o bem estar dos maridos.

Mas esta contradição gera cada vez mais reação das mulheres trabalhadoras no mundo. As mulheres são hoje parte da vanguarda da classe trabalhadora que se levanta em vários países, seja nas revoluções democráticas como no Egito, seja contra os ataques aos direitos na Europa, seja contra os estupros na Índia (que se converteu em uma luta de massa), ou no Brasil, quando nas grandes mobilizações de junho, eram 50% dos manifestantes. São as mulheres também que em todas as categorias profissionais, seja nos serviços públicos em que são maioria, mas também na classe operária, têm estado nas greves e mobilizações por salários e por direitos em várias partes do mundo.

As mulheres trabalhadoras carregam a história de em situações revolucionárias terem sido muitas vezes as precursoras dos grandes levantes das massas. Não é por menos, se são as mulheres as que mais sofrem com as mazelas do capitalismo, também são elas as que muitas vezes se levantam primeiro. Foi assim que, em 23 de fevereiro de 1917 (08 de março no calendário ocidental), as mulheres tomaram as ruas de Petrogrado e acenderam a faísca da revolução russa.

Neste momento, em que a maioria dos movimentos feministas, mesmo os considerados de esquerda são cooptados pelo reformismo, e que o discurso predominante é de que as revoluções não são mais necessárias, afinal a vida das mulheres pode melhorar no capitalismo, é fundamental que escancaremos a realidade cada vez pior das mulheres pobres e trabalhadoras, assim como nos juntarmos a todas as lutas das mulheres como parte da luta geral da classe trabalhadora pela emancipação socialista.

Por Silvia Ferraro, PSTU de Natal/RN

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