9 de dezembro de 2013

As homenagens a Mandela e a situação atual do povo negro na África do Sul

9/12/2013- Com a morte de Mandela, em todo o mundo surgem reverencias e homenagens a esta que foi a maior liderança da luta do povo negro da África do Sul. Quero aqui fazer um registro que acho necessário dada a importância que este fato político tem para a luta do povo negro e da classe trabalhadora em todo o mundo.

Tirando o fato de que muitas das homenagens à Mandela vem de meios de comunicação ou governos que, a seu tempo, ajudaram a sustentar o regime do Apartheid que o manteve preso por 27 anos, são homenagens justas em grande medida. Mandela teve uma vida ímpar, merece o respeito de todos pela dedicação e abnegação à luta de seu povo, e a fidelidade para com suas próprias ideias. Não se moveu delas nem depois de 27 anos na cadeia. Ele sim, foi preso político durante metade de sua vida adulta. Não é a toa o respeito que seu povo tem por ele.

Neste sentido nós nos somamos às homenagens feitas à Mandela. E nos solidarizamos com a dor de sua família e de seu povo. O exemplo de desprendimento e abnegação à uma causa que parecia impossível é um exemplo importante para todos que lutamos contra o racismo e o capitalismo no mundo.

Mas o registro que quero fazer aqui é sobre outro aspecto desta situação que precisa vir à luz. Com toda a luta e o sacrifício de Mandela, as condições de vida do povo negro da África do Sul continuam em uma situação dramática. O Índice de Desenvolvimento Humano (Índice de GINI) indica uma situação pior hoje do que durante o Apartheid. A desigualdade social no país segundo os dados existentes, também está mais aguda agora do que antes.

O país cresceu, ficou mais rico. Mas os mais ricos de antes, estão ainda mais ricos hoje se comparados com os pobres de antes e de agora. Os mais ricos, os controladores das grandes empresas instaladas no país, da mesma forma que antes, são a minoria branca da população (com raríssimas exceções). Os mais pobres, antes e agora, seguem sendo os negros e negras, a ampla maioria da população. E a miséria a que segue submetida grande parte da população negra, por outro lado, alimenta a violência, que cresce assustadoramente martirizando a vida dos trabalhadores e povo pobre do país.

Esta situação é resultado do fato de que Mandela chegou à presidência da África do Sul, mas o controle do poder econômico – e a partir daí, do poder político no país – continuou nas mãos da grande burguesia branca. É ela que segue impondo as regras para o essencial do funcionamento de qualquer sociedade: o que se faz com os recursos e com a riqueza que o país tem e produz. Na África do Sul pós-Apartheid, os recursos e a riqueza produzida segue sendo canalizada para aumentar a riqueza da burguesia branca, e das multinacionais lá instaladas.

Aqui reside um erro importante de Mandela. A escolha pela conciliação com a burguesia branca, ao invés de levar seu povo a uma revolução que pudesse reorganizar a economia do país, acabando com os privilégios da minoria branca e colocando nas mãos do povo negro o controle das riquezas do país. Essa ruptura era a única forma de as mudanças advindas com o fim do Apartheid significarem o alcance de uma vida digna pelos negros.

A decisão de governar junto com a burguesia acabou levando Mandela a governar para ela. São os interesses da grande burguesia branca que seguem sendo privilegiados na política econômica aplicada até hoje por sucessivos governos negros. Até a corrupção – que também vimos aqui em governos do PT – florescem em governos dessa natureza, destruindo lideranças importantes dos trabalhadores pela cooptação. Estão aí as razões da miséria que segue se abatendo sobre o povo negro, adiando seu sonho de liberdade. Não haverá nunca liberdade com a fome, violência e discriminação que domina a vida da maioria dos negros e negras na África do Sul.

Isto não diminui em nada a enorme importância que teve a derrubada do regime do Apartheid, expressão rara do quanto seres humanos podem se aproximar da barbárie levados por esta sociedade capitalista em que vivemos. Mas significa sim que não haverá libertação da classe trabalhadora da exploração e não haverá fim da barbárie racista, sem o fim do capitalismo. E que não há como atingir este objetivo sem romper com os capitalistas, sem uma luta sem tréguas para destruir essa classe (acabando com a propriedade privada que é a fonte de seu poder) que vive da exploração e da opressão da maioria do povo.

Do erro de Mandela e do CNA (Congresso Nacional Africano, o seu partido) precisamos tirar lições que são muito importantes para a nossa luta – daqueles e daquelas que queremos acabar com toda forma de exploração e opressão em nosso país e no mundo.

Por José Maria de Almeida (extraído de sua página no Facebook)

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