26 de janeiro de 2016

Debate resgata luta do Pinheirinho e afirma que trabalhadores precisam disputar o poder nas cidades

26/1/2016 - Em vários momentos a emoção tomou conta dos presentes ao debate “Pinheirinho quatro anos depois”, realizado na última sexta-feira, dia 22, no Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos. O evento, realizado para marcar os quatro anos da reintegração de posse de uma das maiores ocupações do país, mais do que relembrar, pode demonstrar que a luta do Pinheirinho segue viva.

Ao relembrar a história da ocupação, os debatedores, o arquiteto urbanista e professor da FGV Kazuo Nakano e a militante do Movimento Luta Popular Helena Silvestre, falaram sobre temas diversos, como a formação das cidades no Brasil, a luta pela reforma urbana, os efeitos da crise nas políticas de habitação popular e da necessidade dos movimentos sociais por moradia no país.

“A luta do Pinheirinho foi um acontecimento histórico, por que foi uma disputa, um enfrentamento contra uma história de dois séculos. No Brasil, vimos as cidades serem formadas para favorecer setores dos mais conservadores.  Vimos as áreas mais urbanizadas serem ocupadas pelos poderosos, enquanto aos trabalhadores restou a periferia. É uma história muito desigual e o Pinheirinho é uma das mais fortes expressões de resistência a essa situação”, falou Nakano.

Segundo o urbanista, lamentavelmente, o Estado sempre esteve a serviço dos interesses dos poderosos e destaca que não se trata de uma questão apenas do Brasil, mas global. “Mesmo recentemente, quando conseguimos criar legislações avançadas no que se refere aos temas urbanísticos, na prática, não há respaldo dos governos em enfrentar interesses dos setores conservadores e tomar medidas visando uma política nacional de habitação”, falou.

Para o arquiteto, a recente decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) que derrubou a liminar de reintegração de posse da Vila Soma, em Sumaré/SP, é efeito do Pinheirinho. “A luta do Pinheirinho ressoa até hoje, porque a resistência das famílias mostrou que a luta por moradia não podia ser tratada daquele jeito, com tanta violência. Sabemos que esta é uma luta onde às vezes se perde, às vezes se ganha, como podemos constatar ao ver outras diversas ocupações e despejos pelo país, mas ficou a lição de que é preciso resistir”, disse.

“A terra urbana, a cidade, é fruto do trabalho e dos recursos de toda a população. Nada mais justo que seja distribuída com justiça social, pois é construída coletivamente. E nada mais justo do que a luta pela distribuição dessa  riqueza social”, disse.

Disputa de poder
Helena Silvestre foi enfática ao destacar que “lutar pela cidade é lutar pelo poder”. “Lutar pela cidade envolve muitas coisas, pois a cidade não é um lugar no mapa. Ela é uma dinâmica de vida no espaço. Uma forma de organização do território, em que existem relações que as pessoas estabelecem para atender suas necessidades, uma articulação entre os espaços de moradia, produção de alimentos, de trabalho, estudo, lazer”, disse.

“Os movimentos que lutam por moradia, mães que lutam por creche, as manifestações por transporte, as associações de bairro que ainda são combativas, os coletivos de hip hop de jovens da periferia, todos esses movimentos espalhados pelos bairros tentando melhorar a vida das pessoas, são movimentos de resistência, de guerra contra o modelo de cidade excludente que temos hoje. É desse jeito que reivindicamos a luta que aconteceu no Pinheirinho. Por isso, sua força”, disse a militante do Movimento Luta Popular.

“No Pinheirinho não tinha secretaria de habitação, mas as famílias fizeram casas. Não tinha prefeito, mas tinha administração dos problemas. Não tinha secretário de obras, mas tinha ruas e praças. Não tinha Secretaria de Cultura, mas tinha atividades culturais e educacionais”, disse Helena emocionada.

“Se os trabalhadores, sem estrutura nenhuma puderam garantir que uma comunidade funcionasse assim por vários anos, sem dinheiro, sem recursos, brigando contra o despejo, está provado que somos capazes de governar a cidade, de produziu outro modelo de cidade a partir dos bairros, das quadras, das ruas, baseados em conselhos populares que possam decidir coletivamente o que fazer”.

Após a fala dos debatedores, alguns dos presentes tomaram a palavra para fazer perguntas e falar sobre o tema. Uma das falas mais marcantes foi de uma das lideranças da ocupação da Vila Soma, Willian de Souza, que falou da situação vivida pelos moradores desta ocupação localizada em Sumaré poucos dias antes.

“Diante da iminente reintegração que havia sido autorizada pela justiça, repetimos a iniciativa das famílias do Pinheirinho e montamos nossa resistência com escudos e capacetes. No dia seguinte, a foto foi capa do jornal Folha de S.Paulo. No mesmo dia, o governo Alckmin nos chamou para uma reunião e nos ofereceu bolsa-aluguel. À noite veio a decisão do STF, suspendendo a reintegração de posse, em que o ministro escreveu - eu não quero e nenhum dos brasileiros querem que aconteça um novo Pinheirinho. No dia seguinte a Folha de S.Paulo noticiou: não haverá um novo Pinheirinho no Estado de São Paulo”, disse Willian.

“Hoje, eu vim aqui, para dizer apenas uma coisa. Eu sei que foi dolorido, que machucou, me emocionei ao ver o vídeo e as fotos, visitar o Pinheirinho e ver que não tem nada lá hoje, que o terreno não cumpre nenhuma função social. Mas, Pinheirinho muito obrigado! Por ter resistido, por ter enfrentado, por terem se machucado, por terem chorado, mas se não fossem vocês muitos que estão ocupando terra hoje estariam em condições piores. O Pinheirinho foi um divisor de águas e hoje eles pensam duas vezes antes de encostar em um sem teto”, concluiu sob aplausos dos presentes.

Para Toninho Ferreira, presidente do PSTU e suplente de deputado federal, que coordenou o debate, o Pinheirinho ainda é lembrado quatro anos depois pelo exemplo de resistência, disposição de luta e organização que marcaram toda a sua existência.

“É uma luta que inspira e virou modelo de organização para diversas outras ocupações e lutas pelo país. Até mesmo jurisprudências no campo jurídico, como demonstrou a recente decisão do STF. Por isso, nunca esqueceremos a covardia que foi a desocupação e seguiremos na luta pela reparação às famílias e entrega de suas novas casas. Acima de tudo, seguiremos na luta em defesa da moradia e por uma cidade que atenda as necessidades dos trabalhadores e do povo”, afirmou Toninho.

Documentário Pinheirinho
O Sindicato também lançou a exposição “Retratos do Pinheirinho”, com 28 imagens que retratam a ocupação desde o seu início. As fotos, de autoria de vários fotógrafos, são do acervo da entidade que apoiou a luta das famílias do Pinheirinho desde o início.

Toninho também anunciou que será lançado o projeto “Documentário Pinheirinho”, cujo objetivo será reunir a história da ocupação, nos seus mais variados aspectos, desde o início.