3 de novembro de 2014

Artigo: Depois das eleições, a falta d´água

3/11/2014 - No último dia 24, foi divulgado o áudio de uma reunião em que a presidente da Sabesp, Dilma Pena, afirma que recebeu ordens de “superiores” para não falar sobre a gravidade da crise de falta d´água no estado de São Paulo.

No áudio (https://soundcloud.com/revistaforum/audio-sabesp-dilma-pena), a presidente da Sabesp demonstra que estaria em desacordo com o que os “superiores” estão fazendo. Uma vez que Dilma Pena é presidente da Sabesp, acima dela só o governo de São Paulo e os acionistas da empresa, que tem ações na Bolsa de Valores.

O áudio confirma o que já se imaginava: o governo do PSDB escondeu a gravidade da crise para não prejudicar a reeleição de Geraldo Alckmin e a campanha de Aécio Neves.

Mas contra fatos não há argumentos. A falta de água já atinge, total ou parcialmente, mais de 70 municípios, como Guarulhos, Campinas, Bauru, Mauá, fora a capital paulista, e prejudica milhões de pessoas.

Há relatos de cortes no fornecimento de água por mais de um dia em vários locais. A população já começou a armazenar água em baldes, galões e tonéis. Caminhões pipa já são uma realidade para muitas pessoas que têm de disputar umas com as outras para conseguir um pouco de água. Como sempre, os mais penalizados são os bairros das periferias, a população mais pobre.

O Vale do Paraíba também poderá ser afetado. Os reservatórios da região estão com um nível de 12,3%, o menor registrado nos últimos dez anos.

Apesar de tudo, Alckmin e a Sabesp continuam negando que já estão impondo racionamento.
O governo do estado e a empresa têm de ser responsabilizados por essa situação. Não só pelo estelionato eleitoral que cometeram, mas por que, de fato, são responsáveis por essa crise.

Não é a falta de chuvas a principal causa da falta de água. Apesar do agravamento das condições climáticas no planeta, períodos de estiagem são cíclicos, fazem parte da natureza. Essa situação era previsível. Bastariam medidas para resolver ou minimizar os problemas. Bastariam investimentos em
novas redes de captação, proteção de mananciais e nascentes, combate ao desperdício existente na própria rede (que chega a 40%), iniciativas educativas, apenas para citar as medidas mais simples.

A estiagem só agravou uma situação que já vinha sendo alertada desde 2003. A raiz do problema está na política de privatização que avançou na Sabesp, levando à falta de investimentos e de medidas preventivas por parte do governo tucano.

A Sabesp é uma empresa mista de capital aberto. O governo a administra de maneira indireta, por ser detentor da maioria das ações, mas quase a metade do capital acionário está nas mãos de acionistas privados. A busca por lucro é que determina os destinos da companhia.

Em 2013, a Sabesp registou lucro líquido de R$ 1,9 bilhão. Mas, o fato é que a direção da empresa e o governo do Estado transformaram o essencial serviço de fornecimento de água em uma mercadoria, utilizada para gerar lucros para acionistas da Bolsa de Nova York.

Defendemos a Sabesp 100% estatal, sob controle dos trabalhadores, bem como o fim das terceirizações para garantir investimentos e um serviço de qualidade à população.

A população já começou a se mobilizar. Os protestos já começaram. Este é o caminho. É assim que vamos cobrar a punição dos responsáveis e exigir medidas para resolver essa grave crise social.

Por Toninho Ferreira, 1° suplente de deputado federal e presidente do PSTU de São José dos Campos

Publicado no jornal O Vale, em 2 de novembro de 2014