8 de outubro de 2014

OPINIÃO: A síndrome de Lobão e por que o PSDB e a direita cresceram tanto nessas eleições

8/10/2014  - Por Stephano Azzi, do PSTU de São José dos Campos

"A falsidade histórica consiste em descarregar a responsabilidade da derrota das massas espanholas sobre as próprias massas e não nos partidos que paralisaram ou ingenuamente esmagaram o movimento revolucionário das massas. Os representantes do POUM simplesmente negam a responsabilidade dos dirigentes para não assumir sua própria responsabilidade. Essa filosofia impotente que procura resignar-se diante das derrotas, como um elo necessário na cadeia da evolução cósmica, é completamente incapaz de reconhecer - e se nega a fazê-lo - que fatores concretos, tais como programas, partidos e personalidades, foram os organizadores da derrota. Esta filosofia do fatalismo e da depressão é diametralmente oposta ao marxismo como teoria da ação revolucionária."
Leon Trotsky, sobre a Revolução Espanhola de 1936


Observo muitos amigos, intelectuais e lideranças partidárias da esquerda culpando o povo paulista pela votação estrondosa do PSDB e pelo crescimento de alternativas de ultradireita como o pastor Everardo e o criminoso Levy Fidélix.

São declarações sectárias com o trabalhador paulista como: “o povo tem o governo que merece”; “quem ficar sem tomar banho não pode reclamar”; “eles merecem andar amassados no metrô” e outras piores, para não exemplificar as chulas.

Será que o povo tem mesmo o governo que merece? É uma questão colocada à esquerda toda vez que os seus inimigos vencem as eleições. Mas afinal de contas, o que está acontecendo com os paulistas?

A verdade é que a classe trabalhadora paulista é heroica. Os jovens não assistiram os comícios das Diretas Já na Praça da Sé, no Largo Treze e no estádio de Vila Euclides. Não viram a ascensão do movimento sindical e a fundação da CUT e tudo o que aconteceu no ABC e na zona sul de São Paulo nas décadas de 70 e 80.

Eu também não vi, porque tenho 28 anos de idade, mas ouço os mais velhos e leio um pouco. O Estado de São Paulo foi o polo mais forte da luta política do Brasil nas últimas décadas, muito à frente de outros lugares. Aqui, as pastorais operárias e as comunidades eclesiásticas de base doutrinaram a periferia numa espécie de comunismo cristão e em princípios de solidariedade com os pobres, e a Teologia da Libertação teve suas figuras mais representativas. Aqui, foram construídos e libertados dos milicos os maiores e mais combativos sindicatos do país. Aqui, o MST ocupou mais terras que em qualquer outro lugar.

E não foi só de lutas por salários e terras que os paulistas deram exemplos de heroísmo. São Paulo foi o grande quartel-general da derrubada do governo militar no Brasil. O palco dos principais enfrentamentos e o centro nevrálgico da construção de uma democracia burguesa, que hoje percebemos tão falha, foi o ABC paulista.

Provavelmente, o argumento mais importante para entender o crescimento eleitoral da direita em nosso estado é lembrar que São Paulo também foi linha de frente da construção da principal expressão política desse período: o PT e a figura de Lula.

Nas greves, nas ocupações de terra e nas ocupações de terrenos e prédios, na luta por eleições diretas, nas questões raciais, sexuais e de gênero, em toda parte desse estado, em cada cidade, vila e bairro, havia um núcleo petista. Cidades inteiras como Diadema, hoje governada por outro partido, eram dominadas por figuras da esquerda petistas.

Milhões de trabalhadores da terra da garoa confiaram seus esforços na construção de um país mais igualitário, depositaram seu suor, suas economias e colocaram a sua cara nos panfletos desse partido. Em determinado momento, em determinadas cidades paulistas, em determinados círculos sociais, quem não votava em Lula era hostilizado. Tão hostilizado como quem hoje declara voto em Dilma dentro de um vagão lotado do metrô de São Paulo.

Não é questão de patriotismo com o estado. Por princípio, me uno à luta da classe trabalhadora e não ligo para as fronteiras, mas São Paulo é inquestionavelmente, historicamente, um Estado que define os rumos políticos do país. Sem São Paulo, o PT não chegaria à presidência. E o estado não perdeu este posto.

As grandes manifestações que sacudiram o país em 2013 tiveram seu embrião na luta por transporte público, dirigida pelo MPL na capital paulista. Quem não se lembra? Um embrião que levou milhões às ruas contra a destruição dos serviços públicos e a nossa situação econômica.

Portanto, como é possível entender o crescimento eleitoral do PSDB e da direita nesse estado? Os tucanos enfeitiçaram o povo paulista? Fizeram algum ritual de magia, alguma sessão de descarrego coletiva, uma hipnose que faz com que a população opte por gente que quer matá-la de sede?

Os trotskistas, em particular nós do PSTU, não acreditamos que o povo tem o governo que merece. A análise dos números, das estatísticas eleitorais, pode ajudar a enxergar que Alckmin, Serra e Aécio entupiram as urnas de votos aqui, mas não explicam nada mais do que isso. O fato é que os trabalhadores pobres paulistas estão passando da desconfiança, que apresentaram na eleição de 2010, para o ódio ao PT em 2014.

A classe média alta, a burguesia e a pequena-burguesia paulista não têm numericamente o peso eleitoral dos 12 milhões de votos em Alckmin, de quase 60% da população. Portanto, dizer que a classe média definiu as eleições é uma análise superficial. A verdade é que o trabalhador pobre começa a repudiar o PT na mesma proporção em que foi, em tempos passados, seu principal pilar de sustentação.

O PT traiu os sonhos e aspirações da classe trabalhadora em todo o país, mas traiu mais São Paulo, traiu mais o ABC, o Vale do Paraíba, as regiões fronteiriças paulistas com outros estados, porque aqui era o seu quartel-general. Sentiram-se mais traídos e com razão.

Ao chegar ao poder, o PT manteve um modelo neoliberal e privatizante na economia herdado de FHC, perseguiu os sem-terra e sem-teto, cooptou as lideranças sindicais e domesticou a CUT, assumiu as pautas conservadoras de raça e gênero, se uniu aos pastores fundamentalistas nas questões LGBT, fez alianças com Maluf (quem se lembra dos debates mortais entre Maluf e Erundina na década de 90?!) e com o que de mais podre existe na direita e abriu a sacolinha pra receber dinheiro do grande empresariado industrial paulista. Transferiu seu quartel general de São Paulo para Brasília e substituiu a classe operária pela burguesia.

É interessante conversar com um ex-militante do PT das antigas que votou em Aécio ou Marina. Seu ódio é declarado, bufa desferindo palavrões, se sente trouxa por ter construído uma ferramenta que serviu para prejudicar sua família. Neste sentimento (e não no voto) tem toda a razão do mundo.

O PT empolgou e frustrou. Mas o PT é quem? Qual o nome dos bois? Um partido é feito de pessoas mas umas tem mais responsabilidades do que as outras. São seus dirigentes. Os dirigentes do PT, Lula em particular, prometeram à base que quando fossem eleitos o Brasil sairia de país do futuro para país do presente.

Como pode então a culpa ser do povo de São Paulo que o PSDB tenha sido eleito ao governo do estado em primeiro turno, que Serra tenha tirado Suplicy e que Aécio tenha 37% das intenções eleitorais no primeiro turno? É que o povo em São Paulo quis se vingar. Observou as fragilidades de Marina e percebeu que Aécio era um inimigo mais forte e convicto. Votou pra ferrar o PT.

Votou ferido, traído, enganado, com lágrimas nos olhos de tristeza e raiva como quem expulsa de casa um filho que renega os seus pais. É o que podemos chamar de Síndrome de Lobão, que pediu voto para Lula no Domingão do Faustão em 1989, nunca mais foi convidado para nada neste canal, sofreu o boicote da mídia, assistiu a traição do PT e hoje é raivoso contra a esquerda.

Àqueles que afirmam que o povo vai ter o governo que merece só podemos responder: o povo renega a direção que o traiu. A culpa do crescimento eleitoral da direita é de Lula, Dilma, José Dirceu, José Genoíno, Delúbio Soares, Vicentinho e cia. Nunca na história desse país pudemos dizer com tanta certeza que a culpa é da Articulação. Isso acontece porque boa parte da população não enxerga mais diferença entre um tucano e um petista.

No entanto, Aécio e o corrupto PSDB não buscam enganar ninguém: defendem abertamente um programa que prejudica o trabalhador e que favorece os empresários, reivindicando as privatizações e os cortes do orçamento. Já Dilma e o PT aparecem para o eleitor como desonestos, pois falam o contrário dos tucanos na propaganda eleitoral, mas aplicam o oposto quando estão no poder. E às vezes, mais do que ações, o peão gosta de palavra.

Por isso, a culpa não é do povo, é dos dirigentes do PT, de seus parlamentares, de seus sindicalistas, de seus líderes do campo e da cidade, dos dirigentes do MST, da CUT e da UNE, que jogaram a alegria de uma geração inteira de lutadores na lata do lixo por pura falta de caráter e princípios na busca de um cargo em Brasília.

O povo paulista não pode levar a fatura da conta. Esse é o veredito indiscutível da história. Não enxergo com esse enorme catastrofismo dos meus amigos o crescimento eleitoral da direita. Quem pediu votos nas fábricas e na periferia para a esquerda (eu pedi para os candidatos do PSTU) viu que as greves vão continuar, as lutas vão se ampliar e que podemos vencer. A eleição não é tudo na vida e o grande acontecimento político do país é a volta dos protestos por todos os lugares.

Mas de tudo isso é preciso retirar ensinamentos. A esquerda não pode repetir os erros do passado. A alternativa que vamos construir para desfazer o que o PT fez com a esquerda deve ser vacinada contra o oportunismo eleitoralista e deve ter em seu DNA a tentativa de impulsionar uma revolução neste país. Não é através das urnas que vamos conseguir um país com igualdade social e liberdades democráticas profundas. Não é fazendo alianças com partidos burgueses e sendo financiados pelo empresariado nacional ou internacional, pequeno ou grande, que vamos arrancar a direita de seu posto.

É com luta e mobilização, nas ruas, nas greves e defendendo princípios e um programa revolucionário que vamos colocar a classe trabalhadora no comando e fazer o Brasil socialista. Temos fé no futuro de que a decepção de nossos pais e avós não vai ocorrer conosco e com nossos filhos.