18 de setembro de 2014

Artigo: “Sexo e as nega” estreia e comprova: é racista e machista

18/9/2014 - Quem ainda tinha alguma dúvida sobre as críticas previamente levantadas sobre a nova minissérie global “Sexo e as nega” pode comprovar na estreia na última terça-feira que o problema não está apenas no nome do programa. Realmente, a peça escrita por Miguel Falabella é absurdamente racista e machista.

O local onde é ambientada a minissérie é a favela Cidade Alta, no Rio de Janeiro, onde vivem a camareira Zulma (Karin Hils), a recepcionista de churrascaria Lia (Lilian Valeska), a cozinheira Soraia (Maria Bia) e desempregada Tilde (Corina Sabbas.

Como não poderia deixar de ser, a estreia foi marcada por cenas picantes de sexo protagonizadas pela camareira Zuma e pela cozinheira Soraia. Assim como no seriado norte americano (Sex end the City), que já é machista e que inspira a cópia de mau gosto escrita por Falabella, tudo na vida das personagens – seus empregos, ambições e qualquer tipo de interação social com os homens - gira em torno do interesse pelo sexo.
 
Aí eu pergunto, é ou não é machismo reduzir o universo da mulher ao sexo? Pior, reforçando o estereótipo de que as mulheres negras têm a sexualidade mais acentuada. Quer dizer então que não temos outros interesses, ambições ou simplesmente outras coisas com que nos preocupar?

A coisa piora ainda mais quando entram em cena os personagens masculinos, que reduzem as mulheres a seres que só pensam em "casar", "engravidar" ou, então, "pegar o dinheiro da pensão". Infelizmente, tem muito homem por aí que pensa assim, é verdade. O machismo está presente na sociedade e é algo que devemos combater, e não estampar na TV como se fosse algo que devemos simplesmente aceitar, ou como coisa engraçada, para divertir, uma piadinha que não tem nada de mal.


Todo ano no Brasil, cinco mil mulheres morrem vítimas de feminicídio, segundo pesquisa da Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara dos Deputados. Deste total, 60% das vítimas são mulheres negras, um dado triste que mostra que a mistura de racismo e machismo provoca muitas mortes em nosso país.
 
Outro dado revela que a associação permanente entre mulher e sexo faz com que dos 10.378 casos de estupro registrados no Rio de Janeiro, entre 2009 e 2010, 49% das vítimas eram negras, 38% brancas e 12% sem cor declarada. Os dados são de um estudo da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

É por tudo isso que defendemos que nesta sociedade em que temos que conviver com estatísticas como essas; uma sociedade que usa do racismo e do machismo para aumentar a opressão e a exploração dos trabalhadores, que tem no corpo da mulher e, sobretudo, das negras um objeto sexual, não podemos aceitar que estereótipos como esses sejam reforçados.
 
Nosso dever é lutar cotidianamente contra o racismo e o machismo. Em relação a mais esse lixo da Rede Globo, “Sexo e as nega” não nos representa! Boicote, já!

Raquel de Paula é ativista do Movimento Quilombo Raça e Classe e candidata a deputada estadual pelo PSTU