3 de junho de 2014

Trabalho e adoecimento na GM de São José dos Campos: os efeitos da reestruturação produtiva

3/6/2014 - Uma recente pesquisa sobre os efeitos da reestruturação produtiva na General Motors sobre a saúde do trabalhador expõe uma situação dramática. Numa das gigantes da indústria automobilística mundial, um quadro de ritmo de trabalho alucinante, assédio moral, pressão da chefia e precarização das condições de trabalho tem fabricado uma legião de trabalhadores lesionados.

Fruto da tese de doutorado da socióloga e docente da Universidade Metodista de São Paulo Luci Praun, a pesquisa parte das mudanças na organização do trabalho e da produção a partir dos anos 80, adotadas em escala global, tendo como polo a indústria automobilística.

O estudo foi baseado no acesso a diversos documentos, entre eles mais de 1.500 Comunicações de Acidentes de Trabalho (CAT) relacionadas a ocorrências envolvendo operários da planta da General Motors de São José dos Campos.

Os dados foram confrontados ainda com diversas entrevistas realizadas junto aos trabalhadores das plantas de São José dos Campos e São Caetano do Sul.

"Hoje, no capitalismo, a frase tempo é dinheiro tornou-se uma regra máxima dentro das fábricas. As empresas estão eliminando a limites absurdos os tempos de repouso, tornando a vida do trabalhador insuportável”, disse.

“Vivemos um momento no qual os efeitos desse processo se apresentam de forma contundente. Um dos efeitos significativos diz respeito ao crescimento do adoecimento entre os trabalhadores”, disse Luci. “Os ataques contra os trabalhadores lesionados são parte de uma política corporativa da GM”, afirmou.

O Blog PSTU Vale entrevistou Luci sobre as constatações de seu trabalho. Confira.


1) Como você definiria o processo de reestruturação produtiva aplicado pela GM?
Luci Praun - A GM, tal como as outras corporações do ramo automobilístico instaladas no Brasil, passou a implantar de forma organizada as primeiras medidas de reorganização do trabalho e da produção no país a partir da segunda metade dos anos 1990.
    Apesar de essas medidas terem se disseminado pelo mundo desde a década anterior, no Brasil, fruto da radicalização do movimento sindical na década de 1980, as medidas chegam somente na década seguinte. No caso específico da GM, esse processo deu um salto de qualidade com a implantação no início dos anos 2000 do sistema de manufatura desenvolvido pela corporação mundial. 
    O GMS (Global Manufacturing System), citado por todos os operários entrevistados como um marco no aumento do ritmo e intensidade do trabalho nas linhas de produção desta empresa, encontra-se na base dos processos mais recentes de adoecimento identificados pela pesquisa. Ele é, conforme afirmado na tese, “a alma do processo produtivo da GM”. 
    O GMS articula a padronização dos processos de desenvolvimento de projetos e trabalho, diminui drasticamente o tempo de desenvolvimento e execução das operações, enxuga de postos de trabalho, e cria mecanismos de avaliação do trabalho que visam envolver os trabalhadores com as metas e estratégias da empresa.
    A partir da crise de 2008, uma nova fase do GMS passou a ser desenvolvida: a da integração da manufatura da corporação em escala global. 
    Essa nova fase, parte do plano global de reestruturação da automobilística, acentuou ainda mais os processos de flexibilização do trabalho, eliminação dos tempos de repouso dos trabalhadores a partir da intensificação das metas, de práticas relacionadas à multifuncionalidade e polivalência do trabalho. 
    A integração da manufatura vem também favorecendo a uma forte pressão sobre os trabalhadores para que aceitem condições de trabalho cada vez mais precárias sob pena de verem a produção de novos projetos transferida para outras plantas apresentadas pela corporação como “mais competitivas”.

2) Qual a situação de saúde do trabalhador na montadora?
Luci Praun - O resultado de todo esse processo tem gerado um contingente de trabalhadores adoecidos física e mentalmente. Os dados da OIT (Organização Internacional do Trabalho) indicam esse quadro. Os dados colhidos pela pesquisa sobre as condições de trabalho na GM caminham no mesmo sentido.
    O número de trabalhadores com LER (Lesões por Esforços Repetitivos) e Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho (Dort) é assustador.  
    Na GM de São José, entre 2011 e 2012, 66,92% das ocorrências envolveram diagnósticos que constam das listas oficiais de doenças relacionadas a LER/Dort (CID-10).
    Ao verificarmos a listagem de trabalhadores afastados pelo INSS, com afastamentos superiores a 15 dias, a situação é semelhante. Somente em 2012, o total de 1.019 trabalhadores foi afastado do trabalho por período superior a 15 dias. Entre estes casos, 456 foram reconhecidos como afastamentos relacionados à atividade laboral (47,75%). 
   Quando o olhar volta-se para os diagnósticos dos afastamentos, 52% dos casos estão relacionados a enfermidades relacionados a doenças osteomusculares. Chama ainda a atenção a alta incidência de lesões nos membros superiores, sobretudo nos ombros, assim como na região da coluna. 
    Há ainda outro aspecto importante desse processo, também identificado pela pesquisa. O adoecimento físico tem se desdobrado em muitos casos em adoecimento psíquico. 
    Parte destes trabalhadores já combinam medicações para amenizar dores fortes no corpo, cirurgias muitas vezes ineficazes, com medicação para ansiedade e depressão, por exemplo. 
    Vale destacar, como parte desse processo de adoecimento entre os trabalhadores, situações como a do suicídio de um trabalhador no interior da planta de São Caetano do Sul, em 2012, assim como outros episódios similares, apesar do desfecho diferente, em São José dos Campos. 
    O elemento comum entre esses casos diz respeito a envolverem trabalhadores lesionados, com reclamações sobre perseguição e assédio moral. 

3) A forma de pagamento da PLR (Participação nos Lucros e Resultados) afeta a saúde dos trabalhadores?
Luci Praun - Os acordos de PLR ou PR envolvem desde sua origem metas de produção. Metas altíssimas. Muitas vezes inatingíveis, mas estipuladas claramente como um mecanismo que puxa a produtividade às alturas. 
    As metas instituem o ambiente do “salve-se quem puder”. Provoca e traz para o chão de fábrica a competição do mercado. Uma equipe de trabalhadores cobra a produtividade da outra equipe. Os trabalhadores de uma mesma equipe fiscalizam as atividades dos próprios colegas.
    As metas deterioram os laços de solidariedade entre os trabalhadores. No lugar desses laços impera o individualismo, por mais contraditório que isso possa parecer, já que o discurso da reestruturação produtiva está todo ordenado em torno da ideia de trabalho em equipe. A equipe, entretanto, é para potencializar os lucros da corporação e seu espaço no mercado.
    Essa condição de trabalho impacta diretamente na saúde dos trabalhadores tanto pela intensidade e ritmo acelerado de trabalho, como pelo próprio ambiente de competição nocivo à solidariedade, ao companheirismo entre os que trabalham. 
    É parte desse processo o tratamento que os trabalhadores lesionados recebem de parte dos colegas de trabalho. Vistos como “improdutivos”, estes trabalhadores são vítimas de chacotas e pressões dos próprios colegas.

4) O que você pôde verificar em relação à política da GM em relação aos lesionados?
Luci Praun - A política da empresa tem sido a de em primeiro lugar negar qualquer relação entre o adoecimento destes trabalhadores e a atividade desenvolvida por eles em suas instalações. Em raras situações ocorre o reconhecimento. Este, por sua vez, geralmente é resultado de demanda judicial por parte do trabalhador.
    Ao negar-se a reconhecer a situação, a empresa tem por um lado demitido esses trabalhadores em grande quantidade e, por outro, conforme denunciam os operários, pressionado para que façam a adesão ao PDV (Plano de Demissão Voluntária).
    Apesar disso, saltam aos olhos as evidencias sobre o nexo entre adoecimento e atividade laboral. Não parece ser por mera coincidência que estes trabalhadores tenham desenvolvido lesões em partes específicas do corpo; que em 99% dos casos estejam vinculados ao processo produtivo; que a incidência dessas lesões aumente na medida em que o ritmo e intensidade do trabalho também aumentem.
    Esses trabalhadores têm sido tratados como objetos descartáveis. Adoecidos, em muitos casos sem a menor condição de reinserção no mercado de trabalho, são largados à própria sorte.