22 de abril de 2014

Artigo: O voo da Embraer para fora do Brasil

22/4/2014 - A Embraer anunciou semana passada um salto significativo no número de aeronaves já entregues este ano, além de uma carteira de pedidos que não para de crescer. Há, entretanto, um fator importante que não pode passar em branco pelo povo brasileiro.

A diretoria da empresa está no comando de um grave processo de desnacionalização do setor aeronáutico, abrindo caminho para o desemprego de milhares de trabalhadores brasileiros. Apesar de todos os benefícios fiscais e financiamentos recebidos do governo (como os programas de incentivo à exportação Drawback e Reintegra), a Embraer está transferindo parte da produção para México, Estados Unidos, Portugal, Cazaquistão, Argentina, Itália, China, Bélgica e Espanha. Ou seja, o que antes era produzido no Brasil e gerava emprego aqui, começa a ganhar carimbo internacional.

O Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos já comunicou o fato à presidente Dilma Rousseff, ao BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), ao governador Geraldo Alckmin e aos prefeitos de Jacareí e São José dos Campos. Mas nenhuma providência foi tomada. Enquanto isso, as fábricas que fornecem peças para a Embraer e que têm planta no Brasil estão perdendo contratos e fechando postos de trabalho. E é exatamente com o nível de emprego que estamos preocupados.

O Vale do Paraíba concentra 53% da mão de obra do setor aeronáutico brasileiro. São profissionais especializados que estão sendo descartados, ao passo que empresas norte-americanas e europeias assinam contratos bilionários com a Embraer. Entre os anos de 2008 e 2013, foram eliminados 3.292 dos postos de trabalho somente na região do Vale, o que equivale a 18,8% empregos a menos.
Infelizmente, a Embraer traz um histórico nada louvável quando se trata de sua relação com os funcionários. Desde a privatização, em 1994, a empresa realizou três demissões em massa. A jornada de trabalho imposta pela empresa é a maior do setor aeronáutico em todo o mundo. A PLR (Participação nos Lucros e Resultados) paga pela Embraer é menor do que as de muitas fábricas que têm menos de 600 funcionários. Nas Campanhas Salariais, a empresa “esconde-se” em uma bancada da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e se recusa a negociar abertamente com o Sindicato.

Há duas semanas, o Sindicato enviou mais uma carta endereçada ao presidente da Embraer Frederico Curado para discutir sobre a desnacionalização do setor. Cumprindo sua tradição do silêncio e desrespeito aos trabalhadores e à sociedade, a empresa não se dignou a oferecer qualquer resposta. Simples assim.

Embora se trate de uma empresa privada, o governo continua injetando dinheiro público na Embraer. Segundo dados da própria empresa, o BNDES financiou, entre 2004 e 2012, 18% do valor total das suas exportações em aviação comercial.

Por tudo isso, é preciso ficar atento às estratégias usadas pela Embraer para garantir os lucros dos acionistas que vivem da especulação, formados principalmente por bancos de investimentos. O que está em jogo é uma história que levou quase cinco décadas para ser construída e que está servindo para abastecer de forma irresponsável o capital estrangeiro.

Sendo assim, a presidente Dilma e demais governantes têm de agir imediatamente para garantir a permanência do conteúdo nacional na cadeia aeronáutica do país. Não é apenas uma questão social, mas uma questão de soberania que não pode ser menosprezada.

Por Herbert Claros - trabalhador da Embraer e vice-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e região
Artigo publicado no jornal O Vale, em 22 de abril de 2014