20 de outubro de 2014

Sobre a “onda conservadora” e eleições



20/10/2014 - Estamos diante das eleições mais imprevisíveis das últimas décadas. No momento em que escrevo este artigo, não há quem arrisque a dizer, com um mínimo de segurança, qual candidatura sairá vitoriosa do segundo turno, se Dilma Rousseff do PT ou Aécio Neves do PSDB. E como não poderia deixar de ser, essa situação gera muita discussão nos círculos políticos e na imprensa. Neste artigo, quero tratar de dois aspectos deste debate. Na semana que vem, escrevo sobre o voto no segundo turno e os desafios que vejo para os trabalhadores depois das eleições.

Uma das discussões que perpassam hoje no debate político nacional, inclusive em setores da esquerda, é sobre a chamada “onda conservadora”. Ela estaria, segundo algumas visões, tomando conta do país e determinando o cenário político nacional. Também entra nesta conta, a votação surpreendente de Aécio Neves no primeiro turno das eleições. Primeiramente, vou tratar aqui o conceito de “onda conservadora”. E, mais adiante, trato da sua repercussão na votação do candidato do PSDB.

Avanço conservador ou polarização social e política?

Há na realidade, de fato, muitos elementos que poderiam indicar a situação descrita pelos que defendem a ideia da onda conservadora como elemento determinante do cenário político do país. É evidente o recrudescimento da repressão e da criminalização das lutas da juventude e dos trabalhadores; o perfil cada vez pior (se isso é possível) dos deputados eleitos para a Câmara Federal; a maior intensidade de manifestações direitistas, como a recente reação dos militares às atividades da Comissão da Verdade e a violência e manifestações preconceituosas (homofóbicas, racistas e machistas). Estes e outros elementos presentes na realidade política do país seriam a expressão do retrocesso que estaria em curso, segundo uma das visões em debate. É isso mesmo?

Me parece que não. Se é verdade que estes elementos estão sim, presentes no cenário político, também é verdade que este cenário é bem mais complexo que isso. Eles compõem apenas uma parte, de uma totalidade que é mais ampla e contraditória. É preciso evitar uma visão parcial, portanto equivocada, do processo. Não por acaso, os vários textos que tratam da “onda” remetem seu início às manifestações de junho e julho do ano passado. Na verdade, estas reações direitistas e preconceituosas têm, sim, emergido no cenário político com mais força desde então. Mas é preciso contextualizá-las.

Sabemos das limitações que marcaram aquelas mobilizações. Elas não contaram com a participação da classe trabalhadora organizada; foram marcadas por imensa confusão política e ideológica sobre qual seria a alternativa a “tudo que está aí”.  Isso é natural numa explosão espontânea de descontentamento de setores amplos da população. Aliás, não é por outro motivo que a candidatura que mais empalmou aquele processo foi justamente a de Marina Silva, com toda a ambigüidade de seu projeto político que acabou desembocando no apoio Aécio Neves.

No entanto, não podemos deixar de ver o principal daquele processo. Aquelas mobilizações se constituíram num amplo processo de contestação política de tudo que está aí, uma revolta de um setor grande da população, principalmente da juventude estudantil e trabalhadora. Contestação que se expressou num amplo processo de mobilizações de massas contra os governos de plantão (das três esferas) exigindo mudanças no país, exigindo o atendimento das demandas populares. Manifestações que se enfrentaram e derrotaram o enorme aparato repressivo mobilizado para tentar conter a revolta. Foi, portanto, um processo muito progressivo.

Esta ofensiva de massas levou a uma nova situação política no país, a uma mudança na relação de forças na sociedade, mais favorável aos trabalhadores. É também verdade que ela não se mantém da mesma forma, diminuiu muito a participação das pessoas nas mobilizações de rua. No entanto, o processo segue e se aprofunda por outros meios, pelas centenas de greves, ocupações e outras formas de luta que tem sacudido o país nos últimos meses.

O avanço da contestação social, da exigência de mudanças no país para atender as demandas populares, por conseqüência implica em maior ameaça aos privilégios dos que sempre exploraram e oprimiram nosso povo. Vem daí a reação do poder econômico (que se materializa de forma mais clara na violência da polícia e no processo de criminalização das lutas, mas não só), na ação da mídia e também na reação dos setores mais direitistas e preconceituosos da sociedade. E tudo isto acaba por compor um quadro de maior polarização social e política no país. Esta é uma característica da nova situação da luta de classes aberta pelas mobilizações de junho de 2013.

É importante compreendermos esta totalidade, buscando evitar uma análise simplesmente jornalística do cenário político. É preciso ir ao processo mais estrutural, identificando os movimentos mais profundos das massas e da classe trabalhadora. Enxergar a reação dos setores mais à direita sem ver, do outro lado, a ofensiva das massas que a detonaram vai levar a uma leitura errada da conjuntura.

A expressão deste processo na eleição de deputados se deve a mais fatores, que vão desde o fato de que as eleições refletem de maneira muito distorcida a realidade, à influência do poder econômico até a própria forma de votação (se a votação para Presidente da República viesse em primeiro lugar na urna eletrônica, teríamos, certamente, uma abstenção talvez até majoritária na votação para deputados). Aliás, a soma de votos brancos, nulos e abstenções é a segunda colocada no primeiro turno das eleições, o que não deixa de ser expressão também da própria crise de representatividade do sistema que ficou escancarada em junho/2013.

A responsabilidade do PT na votação de Aécio

É absolutamente certo que a votação de Aécio reflete a opinião da maior parte dos banqueiros e grandes empresários de quem ele é o principal representante na disputa eleitoral em curso (parte importante segue ainda apoiando o PT). É expressão também do voto da maioria dos setores mais direitistas da sociedade, a maioria dos setores mais atrasados, machistas, homofóbicos e defensores de toda sorte de preconceitos. Mas, se fosse só isso, a vitória do PT não estaria ameaçada.

Aqui, há um problema que é o seguinte: enxergar o crescimento da votação de Aécio apenas pelo viés da tal “onda conservadora” ajuda o PT a esconder a sua responsabilidade neste quadro. Oculta o fato de que muitos dos votos dados a Aécio, milhões deles, vem de trabalhadores, trabalhadoras e jovens que simplesmente se decepcionaram e sentiram-se traídos pelos governos do PT.

Sentiram-se abandonados por um governo que aliou-se aos banqueiros e grandes empresários garantindo seus privilégios e manteve essencialmente o mesmo modelo econômico aplicado pelos governos do PSDB, negando aos trabalhadores e à juventude as mudanças que estes reclamam nas ruas e nas greves. E, pior ainda, repetindo pura e simplesmente a velha prática das alianças espúrias e da corrupção como prática de governo.

Não fosse isso, o que explicaria que Aécio tenha ganho a eleição no primeiro turno no Campo Limpo, Jardim São Luis, Ermelino Matarazzo, Sapopemba, bairros da periferia da cidade de São Paulo, redutos tradicionais do voto petista? Ou o crescimento da candidatura do PSDB dentro das grandes fábricas do ABC Paulista e da zona sul de São Paulo, antes também reduto do PT? Ou ainda, a derrota deste partido em todas as cidades do ABC Paulista?

Estes milhões de voto são votos de oposição a tudo que aí está, são votos por mudanças, por melhoria nas condições de vida dos trabalhadores e do povo pobre. E, mais uma vez, pela funcionalidade (para o poder econômico, é claro) do sistema eleitoral brasileiro, este descontentamento é canalizado para a candidatura que aparece com chances de derrotar o atual governo, o PT. São “votos de castigo” no PT, e para isto os trabalhadores usam o que têm às mãos, a candidatura do PSDB. Mas não tem nenhum tipo de alinhamento programático com o candidato tucano.

Pelo contrário, é o voto de milhões de trabalhadores que muito provavelmente estarão nas lutas contra um eventual governo Aécio (pois se o candidato tucano ganhar vai fazer mais ataques contra o nível de vida dos trabalhadores, e não as mudanças que o povo quer). E que estarão nas ruas lutando também contra um eventual governo Dilma que não prepara nada diferente do PSDB para a vida dos trabalhadores caso ganhe a eleição. Aliás, do outro lado, muitos dos trabalhadores que seguem votando em Dilma o fazem mais por medo da volta do PSDB do que por apoio mesmo à candidata do PT, tal o desgaste deste partido.

Passadas as eleições, veremos como se desenvolve este quadro de polarização política e social que se abriu em junho de 2013.


Por Zé Maria, presidente nacional do PSTU
Publicado em sua coluna no site Congresso em Foco, 20/10/2014