28 de abril de 2015

Greve de 23 dias enfrenta superexploração em montadora chinesa


28/4/2015 - Menos de um ano depois de inaugurar sua primeira fábrica fora da China, a montadora Chery, em Jacareí/SP, enfrenta uma greve que já dura 23 dias. Nesta segunda-feira, dia 27, em assembleia, os trabalhadores votaram a continuidade da mobilização, que segue por tempo indeterminado.

Tantos dias de paralisação não diminuíram a disposição de luta dos metalúrgicos. Chama a atenção o clima de unidade e firmeza entre os trabalhadores para conquistar suas reivindicações. “Não estamos pedindo nada de mais. Queremos apenas o que é nosso direito básico”, disse Rafael*, operador na empresa.

As razões para tanta disposição de luta estão nas condições precárias de trabalho na montadora. A indignação com a intransigência e o desrespeito aos direitos trabalhistas por parte da Chery é generalizada.

A Chery quer reproduzir aqui no Brasil a mesma superexploração que ela mantém na China”, resumiu Rafael.

Em recente entrevista à imprensa, o vice-presidente da Chery, Luis Curi, teria afirmado que a unidade da montadora chinesa está tomando todas as medidas possíveis para “tornar o custo Brasil menos impactante nas contas da montadora”. Percebe-se como isso está sendo feito.

Os trabalhadores denunciam o salário inicial de apenas R$ 1.199,00, muito abaixo do piso de outras montadoras do mesmo porte, e a falta de benefícios. O convênio médico, por exemplo, não é extensivo aos dependentes que têm de pagar R$ 150 se precisarem usar o convênio. A empresa ainda não possui restaurante. A comida vem de fora e isso já foi motivo de intoxicação alimentar. Não há ambulatório ou enfermeira na fábrica. Há setores terceirizados de forma irregular como no Manuseio e na Logística.

Os funcionários listam ainda uma série de irregularidades. A montadora, que anunciou investimentos em torno de US$ 400 milhões e planeja produzir até 150 mil veículos por ano, impõe condições totalmente inadequadas de trabalho. Há problemas com o fornecimento de EPI (Equipamento de Proteção Individual) e as condições de ergonomia são um atentado contra a saúde dos trabalhadores.

Pedro* é soldador. Trabalha ajoelhado em razão do maquinário da empresa. Lucas* precisa levantar e movimentar as rodas dos carros chineses com as mãos. Essas condições são impostas em uma jornada semanal de 44h, muito acima do que é praticado nas outras montadoras.

Falam que é uma fábrica moderna, mas, na verdade, temos de trabalhar com equipamentos ultrapassados em termos ergonômicos. Tudo é manual para baratear os custos. Um trabalhador se arrebenta em pouco tempo”, disse Pedro.

Trabalhei numa terceira da Volks e aqui consegue ser pior. Empresas pequenas, até as chamadas gatas, têm condições melhores de trabalho”, disse Marcelo*, jovem que trabalha como operador.

A ampla maioria dos cerca de 400 trabalhadores da empresa é de jovens. Com idade entre 19 e 24 anos, muitos são oriundos do Senai e vivem o primeiro emprego, mas há também muitos que são casados e/ou possuem filhos.

Intransigência
A maior montadora chinesa, que foi beneficiada com incentivos fiscais dos governos federal, estadual e municipal, como por exemplo isenção de IPTU e benefícios do Programa Inovar Auto, simplesmente se nega a assinar a Convenção Coletiva da categoria.

Desde o início, a empresa tratou as reivindicações dos trabalhadores com descaso. Nas primeiras duas semanas de greve, a empresa sequer se dispôs a negociar.

Desde que a empresa foi inaugurada em agosto do ano passado, foram oito meses de negociação sem que a Chery aceitasse respeitar as leis brasileiras e os direitos dos trabalhadores. Fez o mesmo diante da greve. A empresa quer implantar o padrão chinês de superexploração. Mas não contava com a resistência dos trabalhadores”, relata Guirá Borba, trabalhador da empresa e diretor sindical recém-eleito.

Em audiência de conciliação no Tribunal de Campinas, a Justiça propôs um piso de R$ 1.850 que foi aceito pelos trabalhadores. Contudo, os metalúrgicos não abrem mão que a empresa reconheça a Convenção Coletiva.

Para o presidente do Sindicato, Antônio de Barros, o Macapá, está em jogo uma luta contra a exploração que pode ter reflexos em toda categoria.

A Convenção Coletiva é a garantia que a empresa não poderá fazer o que quiser. Não pode ser que a Chery pense que pode lesionar o trabalhador com condições precárias de trabalho, pagar menores salários e direitos. Ela vai ter respeitar nossos direitos”, afirmou.

Os governos de Dilma (PT), Alckmin (PSDB) e Hamilton (PT) deram muitos benefícios para a Chery e agora ficam calados diante do desrespeito às leis do país. Não vamos aceitar essa omissão e exigimos que cobrem da empresa o cumprimento dos direitos dos trabalhadores”, concluiu Macapá.