23 de setembro de 2015

Por justiça: Fórum de Trabalhadores entrega ao MPF denúncia da participação da Volks na ditadura civil-militar

23/9/2015 - O Fórum de Trabalhadores por Verdade, Justiça e Reparação entregou nesta terça-feira (22) uma representação ao MPF (Ministério Público Federal) da investigação dos crimes cometidos pela empresa Volkswagen durante a ditadura militar brasileira no período de 1964 a 1985. É a primeira vez que uma empresa é denunciada no MPF por participação em crimes característicos de regimes autoritários no Brasil.

O Fórum comprova por meio de investigação em documentos do Arquivo do Estado a cumplicidade da montadora alemã com os órgãos de repressão no Brasil em graves violações de direitos humanos.

Foram levantados documentos que comprovam o envolvimento no fornecimento de dados dos trabalhadores de suas fábricas ao DOPS, na organização de um sistema próprio de vigilância e monitoramento do movimento sindical e do envolvimento direto na prisão e na tortura de empregados dentro do ambiente da empresa.  

De acordo com o documento entregue, a Volkswagen foi cúmplice e solidária ao Estado na perpetração de crimes de lesa-humanidade, portanto, imprescritíveis perante o direito brasileiro e o direito internacional, motivo pelo qual devem ser reparados pela empresa mediante indenização de cunho coletivo aos trabalhadores.

Para o integrante da Secretaria Executiva Nacional da CSP-Conlutas, Atnágoras Lopes, essa iniciativa não se trata unicamente de uma questão de direitos humanos que vise a reparação às vítimas e a punição aos que participaram da repressão na ditadura.

“Essa é uma ação contundente para um presente quando os trabalhadores seguem sem suas amplas liberdades no chão da fábrica e quando permanece a ditadura de patrão ou ainda como assistimos e sentimos na pele cotidianamente a presença da ditadura na PM que assassina o povo pobre da periferia”, resgata o dirigente.  

O representante do Fórum Sebastião Neto foi quem fez a apresentação da pesquisa e defendeu três pressupostos pra a realização do trabalho: “a continuidade da pesquisa iniciada durante o período em que ocorreram os trabalhos da CNV (Comissão Nacional da Verdade), a fundamentação da documentação que fosse apurada sobre a relação com empresariado com a ditadura e as relações coletivas, ou seja, não estamos pedindo anda individualmente”.

Entre os pontos abordados na apresentação da investigação estavam a articulação empresarial para fins de perseguição e repressão; a elaboração das “listas sujas”; o controle, vigilância e repressão dentro das fábricas; o controle, vigilância e repressão fora das fábricas; as prisões e torturas; e o que foi considerado graves violações de direitos humanos.  

O objetivo da representação, segundo Neto, é que a empresa seja ouvida. “Queremos  que o  MPF convoque a empresa para abrir seus arquivos e explicar essa relação com os órgãos da ditadura”. De acordo com o representante do Fórum, é provável que para a Volks não seja uma surpresa ter de se explicar e reparar as vítimas. “Ela já se viu nessa situação tanto no pós Segunda Guerra quando apoiou o nazismo ou quando teve de reparar trabalhadores na África do Sul”.  

O depoimento do ex-metalúrgico da Volkswagen, Lucio Antonio Belentini, emocionou o plenário. Empregado da montadora alemão de 1964 a 1972 foi preso dentro da empresa. “Me lembro, eram 11 e meia da noite me encostaram uma metralhadora nas costas, logo tinham mais policiais e aí começou a tortura, com chutes, socos; minha esposa me procurou por 47 dias sem saber se eu estava vivo ou não”, lembrou.  

Coordenadora do Grupo 13 – Ditadura e Repressão aos Trabalhadores, às Trabalhadoras e ao Movimento Sindical durante os trabalhas da CNV, a advogada Rosa Cardoso agradeceu aos que trabalharam no projeto e creditou confiança e rigor no trabalho do MPF.

“Tenho certeza que esse documento será examinado com extremo rigor, para que se gere uma cultura democrática em nosso país”, salientou.   Modesto da Silveira, advogado de muitos trabalhadores vítimas da repressão também se manifestou e frisou que a dor da tortura permanece.

“Sei que muitos têm as marcas da tortura no corpo e na alma”. O advogado lembrou também a doação de carros das montadoras aos órgãos da repressão e a numeração seguida das placas. “Me lembro de uma série porque me seguiam os carros com placa 1603, 1611 e 1616).”  

Assinado por todas as centrais sindicais brasileiras, pelo Fórum de Trabalhadores, Rosa Cardoso e outras entidades, o documento foi recebido pelos procuradores Marlon Weichert e Pedro Machado, que se comprometeram a examinar detalhadamente e verificar as ações possíveis o trabalho pelo resgate da efetiva democracia no Brasil.

“O nosso compromisso é examinar com a celeridade e o carinho que um documento dessa magnitude merece”, disse Weichert.   A pesquisa foi realizada Carolina Freitas, Gabriel Dayoub, Sebastião Neto e Milena Fontes.

fonte: www.cspconlutas.org.br