11 de junho de 2015

Realidade dos trabalhadores (as) LGBTs é tema de debates no Congresso da CSP-Conlutas

11/6/2015 - Alessandra Lima (Secretaria Estadual LGBT) e Ana Cristina

As discussões do movimento LGTB foram destaque no Congresso da CSP-Conlutas. Reuniões setoriais, debate sobre opressões e propostas de resoluções trouxeram ao debate a realidade de trabalhadores(as) lésbicas, gays, transexuais, travestis e bissexuais.

Conversando com companheiros e companheiras LGBTs presentes no encontro, fica bastante claro as diversas dificuldades enfrentadas no dia a dia, o preconceito, a discriminação e a perseguição, por conta de homofobia e transfobia, que revelam a relação entre a exploração capitalista e a opressão.

Um bom exemplo é o fato da maioria delas estar localizada em postos de trabalho terceirizados.
Cris é travesti. Mora em Congonhas (MG). Atualmente, está desempregada, depois de ter sido demitida por participar de uma greve na escola municipal em que trabalhava. Não foi a primeira vez que é perseguida. Já trabalhou como cobradora de ônibus e como funcionária na área de limpeza em uma empresa terceirizada na área de mineração. Cris, que já foi agredida por conta de sua identidade, sempre sofreu com piadas e perseguição nos locais em que trabalhou.

“Assumi minha identidade de gênero quando trabalhava como cobradora. Senti segurança e fui falar com meu supervisor. Na época ele disse que não importava, que se eu continuasse um “funcionário” exemplar, não interessava o que eu fazia fora do local de trabalho. Mas não foi assim”, disse.

“Na época enfrentei a morte de minha mãe e tive de me afastar. Fiquei muito abalada. A empresa foi na minha casa e acabou me levando a assinar documentos que na prática significaram a renúncia ao meu mandato na Cipa. Não tinha conhecimento dos meus direitos”, contou.

Quando trabalhou na área de mineração, a situação também foi de perseguição. Cris foi eleita cipeira por duas vezes. Conta que teve o apoio do Sindicato Metabase e lutou pelos direitos dos trabalhadores. Mas acabou sendo transferida de setor para ser isolada. Mesmo tendo estabilidade por ter o auxílio B91, acabou sendo demitida. “O processo se arrasta há cinco anos”, relata.

O relato do “Seu” Alex, um operário transexual da construção civil de Belém, traz à tona a realidade LGBT num setor majoritariamente machista. “Seu” Alex é operário no setor há mais de 25 anos e conta que desde o início assumiu sua identidade de gênero.

“Não foi fácil. Tive de ouvir muita piadinha no local de trabalho, no ônibus, na hora de usar o banheiro. Os homens acham também que as mulheres, principalmente as lésbicas e as mulheres e homens trans, estão tirando o trabalho deles”, contou.

Alex é diretor do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil de Belém. “Entrei na Cipa para tentar resolver os vários problemas que afetam os trabalhadores, principalmente as LGBT, nos canteiros de obra e aí me aproximei do Sindicato”, relatou. “Hoje me sinto fortalecido. Sinto que há respeito nos canteiros por onde passo”, disse.

Cris é integrante da Comissão de Construção do Setorial LGBT da CSP-Conlutas de MG e ressalta que a organização dos LGBTs em sindicatos, movimentos e partido é muito importante, pessoal e coletivamente. “Estarmos organizados em Cipas, sindicatos e no partido nos fortalece”, afirmou.

Para Flávio Bandeira, da Secretaria Nacional LGBT do PSTU, os avanços e o espaço que a luta conquistou, também criou ilusões. “As pessoas ligam a TV, veem duas senhoras se beijando e acham que isso é geral. Que todos podem chegar lá”, avalia.

“Só que a vida real não é assim e os números alarmantes da violência contra LGBTs revela isso. A realidade é que um trabalhador ao assumir sua identidade de gênero pode perder o emprego. São os primeiros a serem demitidos, são perseguidos. As pessoas trans não têm mercado de trabalho e são empurradas para a prostituição”, disse.

2° Encontro Nacional LGBT da CSP-Conlutas
A reunião do Setorial LGBT da CSP-Conlutas durante o congresso reuniu cerca de 60 pessoas, de 40 sindicatos, de várias regiões do país. A realização do 2° Encontro Nacional LGBT no próximo ano foi uma das definições votadas.

O 1° Encontro Nacional LGBT da CSP-Conlutas foi realizado em 2013, numa iniciativa inédita por parte de uma central sindical. Segundo Flávio Bandeira, os desafios são grandes e trata-se de uma luta política e ideológica.

“O arquivamento do projeto que criminaliza a homofobia não foi só um ataque concreto, mas também ideológico. Querem é desestimular nossa luta. É assim com toda a ofensiva conservadora e homofóbica que estão fazendo”, avaliou.

“Temos de organizar a luta por nossas reivindicações. Precisamos avançar na organização dos trabalhadores LGBTs em seus locais de trabalho, fazer a disputa e avançar na consciência de que a luta contra a opressão também deve ser contra a exploração e vice-versa”, concluiu.