18 de novembro de 2014

Entrevista: “Por mais que a Embraer tente negar, foi uma greve histórica”, afirma Herbert Claros

18/11/2014 - Foi uma grande assembleia. No dia 10 de novembro, cerca de sete mil trabalhadores da Embraer de São José dos Campos se concentraram em frente da unidade da Faria Lima, para decidir os rumos da paralisação na fábrica, após quatro dias de greve.

A poucos quilômetros dali, no distrito de Eugênio de Melo, trabalhadores da outra unidade da Embraer, pela manhã, haviam decidido por uma paralisação, enquanto esperavam o desenrolar da decisão na Faria Lima.

Na assembleia, o clima era de expectativa e tensão. No final de semana, a empresa havia operado uma brutal ofensiva sobre os trabalhadores. O assédio moral não teve limites. Supervisores e chefias ligaram para funcionários com ameaças. Usaram o Facebook e o Whatsapp para pressionar e assediar os trabalhadores e suas famílias. Exigiram que os trabalhadores usassem a camisa azul da empresa para supostamente demonstrar seu descontentamento com a greve e com o Sindicato.

Ao final da assembleia, por 60% a 40% dos votos, venceu a proposta de suspender a greve e o Sindicato irá entrar com dissídio coletivo para garantir a reivindicação dos trabalhadores.

O Blog PSTU Vale entrevistou o vice-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e região e trabalhador da Embraer, Herbert Claros, para saber como tudo ocorreu e o significado desta luta para os trabalhadores.



Blog PSTU Vale: Como está o clima entre os trabalhadores após o final da greve?
Herbert – Foi a maior greve da história da Embraer depois da privatização. Mesmo com a intimidação e o assédio moral, que acabou levando à volta ao trabalho, podemos ver que a moral dos trabalhadores está lá em cima. Todos sabem que o que fizemos foi uma luta histórica por nossos direitos e dignidade.

Blog PSTU Vale - No mesmo dia do encerramento da greve, a Embraer anunciou que não fará o desconto dos dias parados, alegando que “não houve greve”. Como você avalia essa decisão?
Herbert - Chega a ser uma piada a Embraer dizer que não houve greve. Foram quatro dias com a fábrica 100% parada. Em nenhum dos dias houve algum incidente com os trabalhadores tentando furar a greve. A ampla maioria depois da votação na quarta-feira nem voltou à fábrica. Os ônibus chegavam vazios. Garantimos os piquetes apenas para cumprir nosso compromisso com os trabalhadores e mostrar que o Sindicato estava lá para garantir a votação da assembleia.
O fato é que a Embraer sabe do descontentamento e a indignação que existe hoje dentro da fábrica. Mesmo com toda a repressão e intimidação que ela fez, a volta ao trabalho foi decidida por 60% a 40% dos votos e maioria dos trabalhadores está revoltada com a postura da empresa.

Blog PSTU Vale: E o setor que se manifestou na assembleia, com vaias e críticas ao Sindicato?
Herbert – Essa greve foi a maior não apenas em razão da quantidade de dias parados, mas por que foi unificada entre os trabalhadores da produção e do setor administrativo. Depois de quatro dias, entre os trabalhadores havia quem era contra e a favor de permanecer a greve. Mas a maioria manteve uma postura democrática. Faz parte. Todos aceitam a decisão da assembleia. Porém, o setor que formou uma claque em frente ao caminhão do Sindicato foi diretamente organizado pela empresa para tumultuar a assembleia. Há, inclusive, informações entre os trabalhadores que a Embraer colocou gente de fora com a camisa da empresa e chefia de outras unidades. A repressão feita por ela também foi absurda.
Chefes se espalharam por toda a assembleia, em grupos, para intimidar os trabalhadores. Alguns supervisores estavam filmando os funcionários com o celular para intimidá-los a votar pelo fim da greve.

Blog PSTU Vale – As redes sociais, principalmente o Whatsapp e o Facebook, foram utilizados pelos trabalhadores e empresa nessa greve. Como isso ocorreu?
Herbert – Chefes a mando da empresa usaram o Facebook para criar uma página onde se pedia a suspensão da greve. Supervisores e gerente usaram o Whatsapp para mandar mensagens e assediar os funcionários. Entre os trabalhadores, o uso das redes sociais é uma realidade, principalmente o whatsapp, conhecido informalmente como “zap zap”. Na Embraer, nós do Sindicato passamos a usar o aplicativo para informar os trabalhadores sobre assuntos de interesse da nossa classe, sobre os lucros e dados da empresa e agora na greve isso virou uma febre. É uma mistura de gozação, com denúncia e também, por que não dizer, conscientização. Ficamos sabendo de muita coisa por esse meio. A vantagem é que é uma comunicação rápida, direta e acima de tudo foge da repressão da empresa.
A cada dia da greve nós gravávamos vídeos dizendo como tinha sido o dia da greve e enviamos pelo Whatsapp. Assim, as pessoas se mantinham informadas e também compartilhavam.

Blog PSTU Vale - O que levou a uma greve de quatro dias?
Herbert – Depois de 20 anos de privatização, as condições de trabalho na Embraer são cada vez mais precarizadas. Economicamente falando, a empresa sempre que está em alta, não reconhece o trabalho dos funcionários e mantém PLR e aumentos salariais rebaixados, como agora. Quando surge alguma ameaça de crise, ela demite sem dó, nem piedade, como fez em 2009, quando mandou embora quatro mil trabalhadores. Tudo para garantir os lucros dos acionistas. Este ano, a empresa dividiu a título de PLR, Participação nos Lucros e Resultados, R$ 16 milhões entre oito diretores. Enquanto isso, 17 mil trabalhadores dividiram R$ 35 milhões (R$ 912 + 12,4% sobre o salário). A diferença é tão brutal que é impossível não causar indignação. Sem contar que o assédio moral é uma política institucional da Embraer, que age com ameaças, perseguição, não respeita o direito de organização dos trabalhadores e nem os lesionados. O índice de trabalhadores com doenças psíquicas na empresa é preocupante. Não tem como os trabalhadores não perceberem a exploração que existe na empresa.

Blog PSTU Vale – Por que o Sindicato acredita que a Embraer tem condições de atender as reivindicações?
Herbert – Porque a empresa vive um ótimo momento de vendas e lucros. No primeiro semestre deste ano, o lucro da Embraer cresceu 955% em relação ao mesmo período de 2013. A carteira de pedidos firmes de aeronaves chegou ao fim do terceiro trimestre em US$ 22,1 bilhões, o maior patamar da história. A Embraer está com contratos fechados com o governo, como o cargueiro KC390. Apenas o desenvolvimento do KC-390 custou R$ 4,9 bilhões, e o governo federal vai desembolsar R$ 7,2 bilhões para adquirir 28 unidades. Sem contar a ajuda do governo em repasses e isenções de impostos.

Blog PSTU Vale – De quanto é a ajuda do governo à empresa?
Herbert – Segundo dados divulgados na imprensa, a Embraer foi a empresa privada com maior volume de repasses do governo federal em 2013. De acordo com números do Portal Transparência, foram repassados R$ 1,113 bilhão em 2013. Este ano, o valor chega a R$ 1,030 bilhão. Entre 1997 e 2008, o BNDES desembolsou US$ 8,39 bilhões para que a Embraer colocasse seus aviões no mercado internacional. Somente em 2013, a empresa deixou de pagar R$ 300 milhões em impostos por causa da desoneração da folha de pagamento. Há ainda outros programas de incentivos, como o Reintegra, Drawback e Inova Aerodefesa.

Blog PSTU Vale - O Sindicato denuncia um processo de desnacionalização. Como isso está se dando?
Herbert - Na época da privatização, o único pré-requisito feito pelo BNDES para continuar financiando a Embraer era a nacionalização da produção. Isso fez com que uma série de fabricantes estrangeiras, como a francesa Latecoere, a americana C&D, a espanhola Aernnova, a belga Sobraer e a espanhola Alestis abrissem filiais no Brasil para fornecer componentes à empresa. Ao longo dos anos, porém, este pré-requisito foi esquecido pelo governo e com um processo de desnacionalização da produção colocado em prática pela Embraer, as chamadas empresas parceiras correm o risco de fechar até 2016, o que coloca em risco o emprego de mais de 1.100 trabalhadores. Tudo isso, por que com dinheiro público brasileiro, a Embraer está mandando para fora do país a produção de vários modelos, como a montagem dos aviões Phenon e Legacy, que seguirá para os Estados Unidos.

Blog PSTU Vale – Como fica a luta na Embraer após essa greve? Que lições deixa essa paralisação?
Herbert – O Sindicato vai entrar com pedido de dissídio na Justiça, reivindicando os que os trabalhadores votaram em assembleia: 10% de reajuste salarial, estabilidade no emprego, redução da jornada e congelamento do desconto do convênio médico, que a empresa quer dobrar de valor.
Vamos também cobrar o governo Dilma (PT). O governo sempre deu muito dinheiro público para uma empresa privada. É acionista com ações Golden Share, com poder de decisão. Portanto, tem o dever de intervir a favor dos trabalhadores e cobrar a responsabilidade social da Embraer, tanto no atendimento das reivindicações desta campanha salarial, como para impedir a desnacionalização da empresa. Aliás, a Embraer deveria voltar às mãos do povo brasileiro, sendo reestatizada, sob controle dos trabalhadores.
Quanto à lição que fica é que somente a unidade e mobilização dos trabalhadores podem barrar os ataques da Embraer e garantir que nós, trabalhadores responsáveis pelo sucesso da empresa, tenhamos nossos direitos garantidos.