28 de novembro de 2014

Protestos contra desaparecimento de estudantes do México continuam e agora apontam para presidente mexicano

28/11/2014 - "Ayotzinapa aponta para Peña Nieto"

Por Alejandre Iturbe

As mobilizações populares continuam contra o sequestro, desaparecimento e possível assassinato dos 43 estudantes normalistas de Ayotzinapa no sul do estado de Guerrero. Agora a luta começa a dirigir-se contra o governo nacional do presidente Enrique Peña Nieto.

O caso Ayotzinapa deixou ao nu várias coisas. A primeira é o que numerosos governos municipais (incluindo sua polícia) e estatais são diretamente controlados pelas bandas de narcotraficantes (como a chamada Guerreros Unidos). Este é o caso do município de Iguala e do estado de Guerrero em seu conjunto. A segunda é que o governo nacional tem uma profunda cumplicidade com esses setores e fez de tudo para dificultar as investigações e o esclarecimento dos fatos.

O narcotráfico
Por várias razões, desde a extensa fronteira comum e o grande movimento de pessoas em uma e outra direção, o México se converteu na principal porta de entrada de drogas ilegais para os EUA, seja de produção própria ou como rota da Colômbia.

Algumas estimativas calculam que o tráfico de drogas move anualmente entre 30 e 40 bilhões de dólares em México (cifra equivalente ao PIB boliviano ou paraguaio), com uma altíssima margem de rentabilidade. Isto explica a proliferação de cartéis e seus extensos grupos armados os quais dominam muitas zonas geográficas do país, incluindo municípios e governos estatais como são os casos de Guerrero e seu vizinho Michoacán.

Explica, também, a “compra” ou associação com políticos burgueses dos diferentes partidos, pois os cartéis realizam importantes contribuições financeiras às campanhas eleitorais de vários deles, incluído o próprio PRI, o partido de Peña Nieto.

Em muitos países existe um forte debate sobre o que fazer com o narcotráfico. Na realidade trata-se de um ramo de produção capitalista, embora com características especiais pela altíssima taxa de acumulação que gera a partir de sua ilegalidade.

As burguesias, inclusive as imperialistas, estão divididas neste tema. Um setor impulsiona o fortalecimento do “combate”, isto é da repressão. Não só para impedir o aparecimento abrupto de novos setores burgueses que acumularam gigantescos capitais com sua exploração senão também (e em grande parte, fundamentalmente) porque justifica a criação de organismos de repressão que, em última instância, estão dirigidos contra o movimento de massas. Lembremos o uso que o governo de Bush fez da “guerra contra o narcotráfico” em seu país e na América Latina.

Outro setor opta por aliar-se e receber parte dos benefícios. Finalmente, estão aqueles que defendem que a legalização das drogas, hoje proibidas, acabaria com o problema. Para além dos debates morais, nossa posição é a favor da legalização destas drogas e o fim imediato de toda repressão aos consumidores.


A “guerra suja”
Sobre esta base estrutural, os processos desnudados pelos acontecimentos em Ayotzinapa são bem mais profundos. No México, desenvolve-se o que se denominou de uma “guerra suja” contra os movimentos e as lutas sociais. Estima-se que, nas últimas décadas, provocou dezenas de milhares de mortos e trinta mil desaparecidos, através de execuções extrajudiciais, grupos paramilitares, tortura e massacres. Os fatos de Iguala são parte deste processo: é um ataque dirigido contra um setor de estudantes de ampla tradição combativa.

Nesta “guerra”, a burguesia mexicana, o governo nacional e as bandas de narcos são aliados. Embora, seria mais correto dizer que a burguesia mexicana e o governo nacional utilizam estas bandas (e a polícia municipal é controlada por elas) como ferramentas de repressão “suja”.

Os “grupos de autodefesa”
Em resposta à “guerra suja” e à aliança entre os governos e os narcos, começaram a surgir no país os chamados “grupos de autodefesa” ou “policias comunitárias”. Isto é, populações de cidades inteiras que decidiram se organizar e se armar para se defender. Especialmente nas regiões mais dominadas pelas bandas de narcos, aliadas às instituições e policiais municipais, onde a violência contra os habitantes é mais dura, alcançando inclusive o controle do preço das mercadorias.

Assim aconteceram em Michoacán, Cherán, La Ruana e Tepalcatepec, onde as “polícias comunitárias” armaram-se com facões, machados e revólveres para conter os narcotraficantes e às próprias polícias municipais.

O governo e o Estado nacional começaram a intervir. Mas não para atacar aos narcos senão para perseguir, deter e torturar aos principais dirigentes dos “grupos de autodefesa”. Defende não só sua aliança com os narcos senão também o “monopólio das armas” que está na base de todo estado e o regime burguês. Uma população organizada e armada representa um grande perigo para o domínio capitalista e há que lhes dar um castigo.

A perseguição aos integrantes dos grupos de autodefesa foi sistemática. Um censo realizado recentemente revela que no país há mais de 3 mil presos vinculados com algum processo político, número que o governo de Peña Nieto nega e esconde. Quatrocentos destes presos são oriundos das organizações de autodefesa.

Os mais conhecidos são Nestora Salgado (dirigente da Coordenação Regional de Autoridades Comunitárias- CRAC, que iniciou sua luta na polícia comunitária de Olinalá e está presa há mais de um ano) e o doutor José Manuel Mireles, do município de Tepalcatepec, líder e porta-voz das Policiais Comunitárias do Estado de Michoacán.

Um processo de mobilização de massas
Diante desta situação, a indignação do povo mexicano é a cada vez maior. O sequestro dos estudantes de Ayotzinapa gerou um processo de mobilização que a partir de Iguala se estendeu ao estado de Guerrero e, dali, a todo México. Em Iguala, a raiva levou a queima do edifício municipal e também foi atacada a Assembleia Legislativa do estado de Guerrero.

Dezenas e centenas de milhares saíram às ruas exigindo o esclarecimento do fato e o castigo aos responsáveis, e receberam a solidariedade de numerosos atos e manifestações em todo mundo.

Em 6 de outubro, uma greve agregou oito estados e as mobilizações seguiram estendendo-se para o norte e para o sul do país. No centro da luta, está o movimento estudantil e a comunidade de educação, em universidades e escolas. Mas eles contam com o apoio de grandes setores da população. Em novembro, novamente aconteceram mobilizações em quase todo o país.

À medida que os fatos não se esclareciam, a raiva foi aumentando e já não afeta somente às autoridades municipais e estaduais, senão começa a se dirigir, de modo crescente, para o governo de Peña Nieto e ao PRI, que cuidam de limitar os danos (isto é os supostos culpados) ao grupo “Guerreros Unidos”, ocultando sua conivência.

Em 22 de outubro, no marco de uma jornada nacional, 70 mil pessoas marcharam na cidade de México para a histórica praça do Zócalo. A marcha entrou na à praça ao grito de “Fora Peña Nieto”! Foi à maior mobilização de massas em muitos anos - e a maior mobilização estudantil desde 1968 - que levantou esta consigna desde que assumiu o atual presidente em dezembro de 2012.

Recentemente, manifestantes bloquearam o aeroporto internacional de Acapulco e atrasaram o vôo do presidente e sua comitiva para a China. Inclusive já existe uma página no Facebook chamada “Fora Peña Nieto”! Nas últimas mobilizações foram queimados bonecos com a imagem do presidente,

É que os fatos de Ayotzinapa atuaram como o detonador da raiva contra um regime e um governo que conservam fortes rasgos bonapartistas e repressivos. A isto se soma uma situação econômica e social que se deteriora e à que o governo do PRI e Peña Nieto enfrenta com uma política claramente pró-imperialista.

O atual processo de mobilização começa apontar - junto do esclarecimento do crime de Ayotzinapa e o castigo a seus responsáveis – para a renúncia de Peña Nieto e a abertura de um profundo processo de discussão democrática sobre como deve ser dirigido o país.

Nós achamos que só um governo dos trabalhadores poderá acabar com os males que afetam o país, originados em um capitalismo semi-colonial atado ao imperialismo norte-americano, incluído o narcotráfico e a conivência da burguesia e o estado burguês com ele.



Por Alejandro Iturbe

Publicado originalmente no site da LIT-QI

Tradução: Rosangela Botelho