20 de outubro de 2014

ARTIGO: As contradições da Embraer

20/10/2014 - A Embraer vive um de seus melhores momentos financeiros. Esta semana, a empresa anunciou o balanço da carteira de pedidos do terceiro trimestre de 2014, com um recorde histórico de US$ 22,1 bilhões. Segundo a própria empresa, parte desse resultado se deve ao contrato assinado com o governo federal para a produção do cargueiro KC-390.

Com este cenário de otimismo e lucros nas alturas, esperava-se que os verdadeiros responsáveis pela produção das aeronaves – os trabalhadores – fossem reconhecidos pela empresa. Também se esperava que a sociedade brasileira fosse beneficiada com esses resultados positivos, já que a Embraer recebe bilhões em incentivos fiscais, financiamentos públicos via BNDES e contratos com o governo federal.

Infelizmente, não é isto que estamos vendo. Vamos à realidade. Em relação aos trabalhadores, depois de um período de tantos contratos, a Embraer se recusa a conceder um aumento salarial de verdade para seus funcionários. Nesta Campanha Salarial, a única proposta apresentada pela empresa é de 6,6% de reajuste, o que representa apenas 0,24% de aumento acima da inflação. Os trabalhadores reivindicam 10% de reajuste. (3,43% acima da inflação)

Se algum leitor considerar que esta reivindicação é alta demais, aí vai mais um número: somente no primeiro semestre deste ano, o lucro líquido da Embraer cresceu 1.000%. Esta bolada foi direto para o bolso dos acionistas, que nunca apertaram um parafuso sequer dos aviões produzidos pela Embraer.

Mas não são apenas os funcionários da empresa que estão sendo depreciados. O próprio país está sendo deixado de lado pela Embraer. Nos últimos anos, acentuou-se a tendência de desnacionalização de aeronaves da empresa, que está levando a fabricação de peças e componentes para fora do país. O resultado é óbvio: fechamento de postos de trabalho nas empresas fornecedoras com plantas no Brasil. Enquanto isso, a Embraer abriu 600 vagas em sua fábrica nos Estados Unidos e ampliou suas unidades na China e em Portugal. Já as fábricas instaladas em nossa região fecharam cerca de 4 mil postos de trabalho nos últimos cinco anos.

Esta é uma prática inaceitável, se considerarmos que a Embraer é uma das grandes beneficiadas pela política de incentivos fiscais do governo federal. Somente em 2013, a empresa deixou de pagar R$ 300 milhões em impostos por causa da desoneração da folha de pagamento. É dinheiro que deixou de entrar nos cofres públicos para beneficiar uns poucos acionistas. Mas há ainda outros programas de incentivos, como o Reintegra, Drawback e Inova Aerodefesa.

Além disso, a Embraer tem con¬tratos bilionários com o governo federal, como o projeto KC-390 e a montagem do F-X2. O KC-390 vai custar à Força Aérea Brasileira nada menos do que R$ 7,2 bilhões.

Só para lembrar: o primeiro cargueiro será oficialmente apresentado no próximo dia 21, graças ao trabalho duro de muitos metalúrgicos, engenheiros e tantos outros profissionais. São para estes trabalhadores que a Embraer se recusa a dar mais do que 0,24% de aumento real.

Todos esses números reforçam a necessidade do governo federal sair de cima do muro e intervir em favor do país e dos trabalhadores. Seja quem for o próximo presidente, é preciso adotar medidas para impedir a continuidade da desnacionalização do setor aeronáutico e garantir o emprego dos trabalhadores brasileiros.

A mobilização dos metalúrgicos na porta das fábricas já começou. Mas queremos contar com o apoio da população nesta luta, que é de todos nós.


Artigo publicado no jornal O Vale, em 17 de outubro de 2014

Por Herbert Claros, 
vice-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e região