20 de agosto de 2014

Artigo: Eu vejo o futuro repetir o passado


20/8/2014 - Infelizmente, estas eleições têm se mostrado cada vez mais um balcão de negócios, em que não se apresenta ideias e propostas, mas se vendem candidatos e slogans. As eleições são o terreno da burguesia. É o poder econômico que elege os candidatos e não a força ou a justeza de suas ideias e planos.

Um levantamento feito pelo site UOL informa que as campanhas eleitorais vão custar até três Copas do Mundo (R$ 73,9 bilhões). Nessa negociata, Dilma Rousseff (PT) pretende gastar R$ 298 milhões, Aécio Neves (PSDB), R$ 290 milhões e  Marina (PSB/REDE), R$ 150 milhões.

Apesar de muito ricos, estes candidatos ou partidos não possuem toda essa dinheirama. São as grandes empresas, bancos e empreiteiras que investem esse dinheiro para manter seus lucros e garantir que, depois de eleitos, os políticos continuarão governando para os interesses daqueles que os financiaram. É como diz o ditado popular: “quem paga a banda, escolhe a música”.

Não por acaso, até mesmo a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) entrou com uma ação no STF (Supremo Tribunal Federal), a mais alta corte de juízes do país, questionando a legalidade do financiamento privado de campanha. A votação estava 6 x 1 favorável a acabar com o financiamento de empresas a partidos e políticos. O PSTU foi o único partido a tomar parte da ação junto com a OAB, defendendo o fim do financiamento privado (assista aqui o vídeo). Após o pedido de um dos juízes, o processo está suspenso.

A importância de ser independente dos patrões
Quando a maioria do PT decidiu por retirar do programa de fundação daquele partido a expressão “sem patrões” e manteve apenas “por um partido dos trabalhadores” abriu-se uma enorme polêmica. Nós denunciamos que essa manobra era o início do fim daquele projeto organizativo. E foi.

Agora em 2014, com a entrega da primeira prestação de contas ao Tribunal Superior Eleitoral, é possível constatar que o PSOL do Rio Grande do Sul recebeu R$ 50.000,00 do Grupo Zaffari. Valor que foi dividido: R$ 30.000,00 para a campanha de Roberto Robaina (MES) ao governo e R$ 15.000,00 para a campanha à presidência de Luciana Genro (MES). Desta forma, este partido demonstra que não aprendeu com os erros do passado.

O PSOL fala uma coisa e faz outra
Publicamente, Luciana Genro se coloca contra o financiamento privado de campanha, mas nos bastidores aceita o financiamento que supostamente condena.

Em outras eleições, o PSOL, tendo a frente a corrente MES (Movimento Esquerda Socialista), que na juventude é o JUNTOS, já havia recebido dinheiro de grandes empresas como a Gerdau, Taurus e o próprio Zaffari. O mesmo fazem outras correntes do PSOL, como a do senador Randolfe na eleição de 2012.

O PSOL diz se contrapor à “velha política”, mas age da mesma forma que os velhos partidos tradicionais.

Já na sua fundação, o estatuto do PSOL deixava em aberto o financiamento pela burguesia nacional.

“CAPÍTULO XI - DAS FINANÇAS E DA CONTABILIDADE
Art. 71 – Os recursos financeiros do Partido serão originários de:
III – Rendas eventuais e receitas de atividades financeiras e partidárias, observadas as
disposições legais;
Parágrafo Único - Não serão aceitas contribuições e doações financeiras provindas, direta ou indiretamente, de empresas multinacionais, de empreiteiras e de bancos ou instituições financeiras nacionais e/ou estrangeiros (...). (grifo meu).”

Quer dizer que dinheiro da burguesia nacional pode? Segundo a prática e o estatuto do PSOL podemos concluir que não há problema em ser financiado pela burguesia nacional industrial, do agronegócio, do comércio e varejo (como o caso do Zaffari). Mas há diferenças entre o dinheiro dos exploradores daqui ou de fora?! Opinamos que não!

Para onde vai o PSOL?
Essa postura do PSOL, não se trata apenas de incoerência e hipocrisia. Isso é pouco em relação ao que essa atitude de fato representa. O grande problema é que numa sociedade dividida entre trabalhadores e patrões, ser financiado pelos patrões é romper a barreira de classe. É tomar dinheiro do inimigo e namorar seu programa. É dizer aos trabalhadores que podemos nos aliar, mesmo que eventualmente, com quem nos explora todo dia!

Para nós, essa barreira entre patrões e trabalhadores é clara e intransponível! É parte dos princípios de nossa organização jamais receber dinheiro da burguesia para financiar nossas lutas ou nossas candidaturas!

É óbvio que o grupo Zaffari não é bonzinho, nem acredita nas ideias do PSOL. Assim como financia o PSOL, financia todos os partidos da ordem. Quando os capitalistas fazem isso com os partidos tradicionais (PSDB, DEM, PMDB, PSB e o PT), o fazem para ter certeza que se eleitos serão recompensados com licitações e obras públicas, além de favores estatais.

Mas quando os capitalistas fazem isso com um partido da esquerda socialista, que reúne uma importante parcela dos ativistas do movimento social combativo do nosso país, o fazem – além dos mesmos motivos de antes – para minar as bases dessa organização. Fazem para que, aos poucos, esse partido vá se adaptando, tranquilizando o discurso, os métodos, as ações. Fazem para comprar e destruir este partido. Assim, com o tempo a organização vai se tornando refém dos inimigos de classe até que pula de “mala e cuia” (como se diz no RS!) para o outro lado. Tragicamente, essa  não é uma história nova.

A nova velha prática da conciliação de classes
O PT não serve mais aos interesses dos de baixo. A direção do PSOL sabe disso. Então por que repete esse erro? O PSOL saiu do PT fazendo estardalhaço, denunciando o financiamento das empreiteiras e a aliança com os setores mais atrasados da sociedade. Agora, pega dinheiro das empresas e aprova uma candidatura que defende o Estado assassino de Israel (Solange Pacheco, candidata a deputada estadual, do PSOL no RJ).

O PSOL ser financiado pela burguesia, infelizmente, também não é nenhuma novidade. Vem recebendo dinheiro das grandes empresas desde a eleição de Porto Alegre em 2008 e fizeram isso de maneira aberta nas eleições de Belém e no Macapá, em 2012. Aceitar dinheiro da burguesia tem sido um ponto em comum do MES e da Unidade Socialista (corrente do Senador Randolfe). Essa atitude da direção do PSOL se dá justamente após tudo que aconteceu no último ano. Quando a população se moveu por um novo projeto, por uma alternativa. Logo após todos os protestos de junho e as greves que sacudiram o país. Logo quando os trabalhadores e a juventude, aos milhares e depois de muitos anos, voltaram às ruas, ousaram lutar e vencer. Apesar de tudo, o PSOL optou mais uma vez por reforçar o “vale tudo para eleger”.

Talvez, esta seja a primeira frustração de vários militantes honestos do Bloco de Esquerda do PSOL, que ao defender Luciana Genro em contraposição à Randolfe, a viam de fato como uma alternativa real de mudanças. Enxergaram nela não só outro perfil, mas outro programa e prática. Lamentavelmente, Luciana e Randolfe são iguais nesse sentido. Desde a primeira vez que o PSOL rompeu a barreira de classe e pegou dinheiro com a burguesia nós alertamos e continuaremos dizendo: esse é um caminho sem volta!!

Uma atuação revolucionária nas eleições
O PSTU é profundamente diferente do PSOL e dos partidos tradicionais. Acreditamos na total independência política dos trabalhadores, e ela só é possível com independência financeira.

Somente com as mãos livres a classe operária poderá cumprir sua tarefa histórica de salvar a humanidade da barbárie capitalista. Não procuramos atalhos ou caminhos que, à primeira vista, parecem mais fáceis. Temos mais paciência, somos mais otimistas. Seguimos acreditando que a união dos trabalhadores pode mudar o mundo.

Queremos ganhar muitos votos, mas o que mais queremos é trazer os trabalhadores e a juventude para um programa que aponte para tomada do poder pela classe trabalhadora. Enxergamos as eleições com o entusiasmo que as liberdades democráticas nos dão para falar aos milhões de trabalhadores. E lutamos para eleger parlamentares que sejam a voz da luta revolucionária. Mas os nossos sonhos não se acabam nas urnas.

Os trabalhadores e a juventude em luta devem tirar conclusões. Muitos deles estão rompendo com o PT e procurando onde se apoiar. Aqui se reabre uma polêmica e queremos incentivar ao máximo a esquerda socialista a tirar conclusões sobre o que significa esse fato para a própria natureza do PSOL e para a trajetória dos movimentos sociais. O caminho de receber dinheiro das empresas nas eleições tem se mostrado um caminho sem volta. Com a palavra, os trabalhadores e a juventude.


Por Chico César, do Rio Grande do Sul, e Edgar Fogaça, de São José dos Campos



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