23 de julho de 2014

Artigo: A destruição de Gaza


23/7/2014 - Jogar bola na praia é algo que todos já fizemos em algum momento. Brincadeira saudável, atrai qualquer criança. Mas não será assim que as peladas a beira mar serão lembradas pela família Bader. Foi em meio a uma delas que os irmãos Zacarias e Ahed, além de dois primos chamados Mohamed, morreram após um bombardeio de navios de guerra israelenses à costa da Faixa de Gaza. Eles tinham entre 9 e 11 anos. Vieram somar-se aos mais de 500 mortos da atual agressão orquestrada por Israel.

Verdade que a vida em Gaza nunca foi fácil, mas desde que os palestinos da região elegeram o Hamas, em 2006, o cotidiano tornou-se impossível. Assistimos à terceira guerra de Tel Aviv contra a faixa, em meio a um cerco por ar, terra e mar que sufoca os palestinos há sete anos. Aliás, muito se diz sobre as ditaduras do mundo árabe. Porém, quando experiências democráticas produzem governos antipáticos a Israel, passa a prevalecer a tese da “guerra ao terrorismo”, que justifica qualquer ação, até mesmo uma campanha consciente de destruição por completo de uma sociedade.

Segundo a Anistia Internacional, o bloqueio não apenas impede a maioria da população de Gaza de sair ou exportar mercadorias, como também permite apenas a importação bastante restrita de itens básicos. Não por acaso, materiais como cimento, madeira, canos, vidro, barras de aço, alumínio e peças de reposição, são extremamente raras ou indisponíveis. Mas a par de insumos para a construção civil, a lista de proibições israelenses barra produtos tão perigosos quanto grão-de-bico, chá, macarrão, geléia, biscoitos, molho de tomate, quebra-cabeça, lápis e canetinhas de colorir.

A punição à desobediência eleitoral palestina não se limita à política de sufocar Gaza, que se tornou um campo de concentração a céu aberto. De dois em dois anos Israel bombardeia, invade e destrói o máximo possível da Faixa.
De acordo com o relatório Goldstone, produzio a pedido da Assembleia Geral da ONU, e de documentos de organizações internacionais de direitos humanos como a Anistia Internacional e a Human Rights Watch, destruir Gaza parece ter-se convertido em um dos objetivos preferenciais de Tel Aviv.

Ao longo da incursão israelense de 2009, além de mais de mil e quatrocentos mortos e dezenas de milhares de feridos, Israel destruiu ou danificou 58 mil casas, 280 escolas e creches (18 das quais foram inteiramente pulverizadas junto com 6 prédios universitários), 1.500 fabricas e oficinas, as principais instalações de água e esgoto, 80% dos grãos armazenados e quase 1/5 da terra cultivável. Os bombardeios israelenses resultaram em 600.000 toneladas de entulho, 900 milhões de dólares em destruição e 3 a 3.5 bilhões em prejuízo aos palestinos. Já em Israel, cuja destruição física em seu território custou em torno de 15 milhões de dólares, os foguetes do Hamas, conforme diz a Anistia, danificaram “diversas casas de civis e outras estruturas… uma foi quase inteiramente destruída”.

Ainda segundo a entidade, “ao contrário das afirmações dos representantes israelenses sobre a utilização de “escudos humanos”, (…) não foram encontradas provas de que o Hamas ou outros grupos armados locais utilizaram-se de civis para proteger objetivos militares dos ataques”. O problema, explica o relatório, é que neste território de 360 km2, com 1,8 milhões de habitantes, caracterizando uma das mais densas concentrações humanas do planeta, as instalações do Hamas e os guerrilheiros palestinos misturam-se naturalmente aos civis.

A nova aventura israelense em Gaza certamente seguirá seus padrões de destruição bienal, a despeito das críticas que ecoam de todo o mundo. Resta saber se a repetida estratégia vai ter sucesso em minar a independência e a autodeterminação palestinas.

* Aldo Cordeiro Sauda é cientista político e Marcia Camargo, jornalista e escritora, tem pós-doutorado em história pela USP.

Artigo originalmente publicado no Jornal Folha de São Paulo, do dia 22 de Julho, na sessão Tendências & Debates, com o título Bienal da Destruição