25 de janeiro de 2014

Yarmouk: liberdade à Síria, libertação à Palestina

25/01/2014 - Para os palestinos do campo de Yarmouk, as ruas e guetos deste bairro operário é o que sobrou da conexão entre a Palestina e a Síria, Jerusalém e Damasco. Destruída por mais de quatro décadas de ditadura e uma intensificação do exílio, o campo é hoje alvo constante dos mísseis do regime Assad.

As imagens de Yarmouk, de crianças, mulheres e homens famintos, cães e gatos esqueléticos e sopas de cactos com hibiscos para alimentar as famílias remanescentes, tornaram-se uma pandemia midiática. Fora de seu contexto e desassociada da realidade revolucionária pela qual atravessa o país, qualquer um que observa tais imagens a associa a um desastre natural. Porém, os palestinos da Yarmouk sabem que sua tragédia não é natural. Ela é política, chamada da segunda Nakba, que em árabe significa catástrofe, nome dado à criação do estado de Israel em 1948. Desta vez, porém, seus principais executores não são as gangues de Israel, mas sim as gangues de Bashar Al Assad.

O Campo, estabelecido em 1957, abriga, desde então, os palestinos expulsos de seus lares após a formação do estado de Israel. Atualmente, meio milhão de palestinos moram em dez campos de refugiados espalhados pelo país, do qual 120 mil habitam em Yarmouk.

O campo é na prática uma das favelas de Damasco. Localizado na periferia da zona sul da cidade, ele evoluiu para se tornar também o lar de milhares de trabalhadores sírios que fugiram da bolha inflacionária nos preços de habitação, causada pela neoliberalização da economia nacional. Tal processo, iniciado por Hafez al Assad, pai do atual ditador, foi intensificado por seu filho.

Yarmouk: bastião da intifada… na capital ocupada da Síria
Em março de 2011, com o início da revolução Síria, parte de um enorme e poderoso processo regional, o campo de Yarmouk logo aderiu ao levante. Enquanto alguns insistiam na necessidade dos palestinos se manterem ‘neutros’ deixando a ‘política síria para os sírios’, esta nunca foi a linha dos refugiados de Damasco.

Os custos da participação dos palestinos na vida política da Síria, desde o início, eram muito mais altos que o de qualquer sírio. Enquanto estrangeiros, não foram poucas as vezes que o regime de Assad ameaçou deportá-los em massa caso os mesmos aderissem à revolução. Somado a isto, há décadas o campo de Yarmouk é controlado pela milícia da PFLP-CG, uma organização atrelada ao serviço de inteligência do governo sírio que atua como uma verdadeira máfia no campo.

Apesar do bairro não ter visto as tradicionais manifestações de sexta-feira nos primeiros meses da revolução, logo em março o comitê de coordenação local de Yarmouk, um dos muitos órgãos de poder dual estabelecidos pelo país, foi fundado.

Os ativistas locais também estiveram entre os primeiros a organizarem “comitês de ajuda” para absorver as gigantes ondas de refugiados internos que fugiam da violência do regime nos barros vizinhos de Tadamon e Midan. Estes ativistas foram cruciais no estabelecimento de hospitais de campo clandestinos e abrigos secretos, além de documentarem e denunciarem para todo o mundo as manifestações que sacudiram a capital e a violenta repressão do regime.

Mesmo com o risco de deportação, a participação do Campo na revolução deu um salto a partir dos dias 5 e 6 de junho de 2011.

Como parte da campanha de comemoração da guerra de 1967, tendo o objetivo de distrair o mundo da revolução Síria, uma campanha publica foi lançada pela PFLP-CG e o regime sírio, encorajando os palestinos a participar de uma “Marcha à Palestina”.

Radicalizados pelas revoluções árabes, jovens refugiados de todos os países árabes que cercam a palestina ocupada participaram da marcha, uma das muitas expressões do papel das revoluções árabes na reanimação da luta dos palestinos. Porém, os ativistas em Yarmouk tinham consciência que no caso especifico sírio, o regime estava tentando canalizar o impulso revolucionário da juventude para um show midiático, cujo eixo principal era tirar o foco da revolução e os massacres orquestrados pelo governo nas diversas cidades da síria, e, ao mesmo tempo, mandar a Israel um sinal: Assim como protegemos sua fronteira ao longo destes últimos 40 anos, podemos, agora, sacudi-las.

Dentro deste contexto, centenas de jovens e corajosos palestinos, permitidos pela primeira vez a se aproximar da palestina histórica, foram massacrados pelos soldados de fronteira israelense. Tudo isto enquanto o exercito sírio assistia de camarote tais crimes, sem se mexer em um só milímetro. 32 palestinos, incluindo uma jovem mulher síria, foram mortos naquela tarde.

No dia seguinte, quando os corpos retornaram ao campo de Yarmouk para serem enterrados, as massas se revoltaram. A população do Campo voltou seu ódio contra o regime sírio e suas marionetes da FPLP-CG, por tratar seus filhos como bucha de canhão. Os manifestantes, desarmados e indignados, incendiaram os escritórios da FPLP-CG. A milícia governista, ao se defrontar com a família dos mártires, abriu fogo contra elas. Mais 10 palestinos foram mortos.

O evento marcou uma importante virada na dinâmica revolucionária de Yarmouk. Depois daquele dia, o famoso canto das revoluções árabes se espalhou pelos muros do bairro: “o povo exige a derrubada do regime, o povo exige a derrubada da FPLP-CG”.

Desde os massacres da FPLP-CG, o campo de Yarmouk tem sido sacudido todas as sextas com o canto “um só, um só, um só, palestinos e sírios são um só povo”. No campo, há um consenso: a estrada para a palestina começa de uma Damasco livre.

Tal consciência, infelizmente, não se faz presente em parte significativa das entidade palestinas e, principalmente, seus supostos simpatizantes espalhados pelo mundo que tem atuado para encobrir os crimes da ditadura Assad.

Se ajoelhar ou passar fome: o regime sírio impõem sua punição coletiva contra Yarmouk revolucionária
A PFLP-CG tem cumprido um papel particularmente nefasto na repressão dos ativistas palestinos, entregando-os aos serviços de inteligência, onde são  serem brutalmente torturados.

Khaled Bakrawi, um ativista palestino de 27 anos de idade, foi preso pelo serviço de inteligência síria após ter sido entregue pela FPLP-CG em janeiro de 2013. No dia 11 de setembro daquele ano, o comitê de coordenação local de Yarmouk anunciou sua morte sob tortura. Tendo nascido e vivido sempre em Yarmouk, sua família era originária do vilarejo palestino de Loubieh, destruído pelos israelenses em 1948. No dia 5 de Junho, Khaled havia participado da “Marcha do Retorno”, tendo tomado dois tiros no peito pelo exercito israelense. Boa parte dos supostos amigos do povo palestino, que o tinham como herói, não pronunciaram uma só palavra após sua morte nos porões da ditadura. Ele marchou à Palestina e dirigiu manifestações contra o regime em Yarmouk. Pagou o preço por ser um revolucionário palestino.

No início de dezembro de 2012, um cerco parcial foi inicialmente imposto ao Campo pelo exército sírio. No começo, pessoas com comida e medicamentos entravam no campo sob o risco de serem mortas pelos atiradores de elite do regime. Quanto mais a população de Yarmouk se indignava e aderia à revolução, mais duro ficava o cerco.

No dia 14 de julho de 2013, todas as entradas do bairro foram rigidamente bloqueadas. O desespero e o pânico tomou o campo,sem acesso a qualquer tipo de alimento, o preço do que havia sobrado do arroz nos mercados locais chegou a ultrapassar a marca dos 200 reais por quilo.

Imagens de crianças, homens e adultos, morrendo de fome e desidratação nos duros invernos de Damasco chocaram a todos. Crianças saíram às ruas procurando por cactos e ervas. A comida tornou-se inexistente. Cães e gatos tornaram-se refeições de luxo, enquanto mães procuravam por cadelas que haviam dado cria para amamentar seus filhos.

O regime continuou a bombardear o campo por terra e ar. O cerco impediu os moradores do campo ter acesso a qualquer medicamento. Mais de vinte mil palestinos que sobraram em Yarmouk foram postos para viver na Aushvitz síria.

Quando a maioria das entidades supostamente pró-palestinas romperam seu silêncio em relação ao campo, foi optado a via da “neutralidade”, com muitos se recusando a responsabilizar as gangues de Assad pelo cerco à Yarmouk.

Repetindo a familiar retórica da ocupação israelense, que justificou seus ataques à Faixa de Gaza em 2009 devido à presença de radicais islâmicos na cidade, o regime e seus apoiadores hoje responsabilizam os mesmos ativistas islâmicos pelos ataques de Assad contra o povo. Chamam os “grupos armados” a evacuar Yarmouk, anunciando que sua presença legitima as ações da ditadura. Culpam os revolucionários, lavam as mãos de Assad e enfiam sua faca nas costas do povo palestino.

Solidariedade Internacional
No dia 25 de Janeiro de 2014, a data que celebra o 3° ano da revolução egípcia, revolucionários palestinos de Yarmouk chamaram o mundo a um dia global de solidariedade ao Campo, exigindo um fim ao cerco bárbaro da ditadura.

Desde o primeiro dia, não hesitamos em deixar claro de que lado das barricadas nos encontramos na Síria, o dos revolucionários. Por isto, nos colocamos em solidariedade com os palestinos de Yarmouk. Não apenas por serem vítimas, mas, precisamente, por serem revolucionários. Eles lembram a todos que apenas pela libertação do mundo árabe poderemos libertar Jerusalém. Eles são a geração da terceira intifada nas ruas de Damasco, a verdadeira materialização da revolução palestina.

Por Sara al Suri, ativista síria (em www.pstu.org.br)