5 de novembro de 2013

Após participar de campanha eleitoral na Argentina, Alex Gomes, militante de São José, comenta vitória da esquerda

5/11/2013 - A Argentina realizou eleições no dia 27 de outubro para renovar metade das cadeiras da Câmara dos Deputados, um terço do Senado e para eleger vereadores em dez das 24 províncias do país.

O governo manteve a maioria dos assentos nas duas Casas, mas amargou derrotas nos maiores colégios eleitorais. Contudo, foi o desempenho da esquerda que foi o destaque nessas eleições.

A Frente de Esquerda e dos Trabalhadores, da qual fez parte o PSTU, partido argentino da LIT-QI, elegeu quatro deputados nacionais, somando mais de 1,1 milhão de votos.

Alex Silva Gomes, metalúrgico da GM e militante do PSTU em São José dos Campos, esteve na Argentina entre 16 de setembro e 10 de outubro, quando participou e acompanhou a campanha eleitoral.

O companheiro pode conhecer e militar nas cidades de Buenos Aires, Lanus, Munro, San Miguel, San Martin, Pacheco e Rosário durante esse período. Em entrevista ao blog PSTU Vale, Alex falou sobre as eleições argentinas.


PSTU Vale - A Frente de Esquerda e dos Trabalhadores obteve um resultado histórico nas eleições realizadas no dia 27 de outubro, na Argentina. Isso já era esperado?
Alex - Foi surpreendente sem dúvida. Foi um resultado histórico. Já se esperava uma boa votação por conta das primárias de agosto, quando a Frente de Esquerda já obteve quase 1 milhão de votos. Mas, nesta eleição de outubro, os mais de 19% de votos em Salta e 14% em Mendoza, por exemplo, mostram que a cada dia que passa aumenta o anseio da classe trabalhadora por uma alternativa à esquerda dos governos e oposições burguesas. No total, conseguimos eleger quatro deputados nacionais da Frente, composta pelo PTS, PO, Izquierda Socialista, PSTU e outras correntes de esquerda.

PSTU Vale - Você esteve na Argentina no mês de setembro e participou da campanha eleitoral da Frente de Esquerda. Como foi?
Alex - Uma experiência pra vida inteira! Fiz várias visitas à casa de trabalhadores e campanhas de rua e pude perceber que existe muito interesse na política por grande parte da população argentina. Creio que isso seja um reflexo da cultura de leitura que eles têm e, também, dos processos históricos que o país já viveu, notadamente após 2001.
O PSTU, partido formado em 2011 após a fusão de várias correntes, vive hoje um rico processo pela sua legalização. Ter a oportunidade de poder militar ao lado de grandes quadros que fizeram a história da nossa corrente e aprender com suas histórias é algo que não se pode mensurar. Acho que todo militante, tendo possibilidade, tem que fazer essa experiência!

PSTU Vale - O que você pode verificar sobre a situação dos trabalhadores argentinos?
Alex - Em suma, posso dizer que sofrem dos mesmos problemas que os trabalhadores brasileiros. Ataques da patronal para redução de salários e direitos, medidas do governo que visam proteger o grande empresariado e os banqueiros e sindicatos e centrais burocratas que tentam travar a luta dos operários para defender seus privilégios.
As condições laborais geram milhares de lesionados todos os anos, que são demitidos por falta de uma legislação que de fato os proteja. E há muita pressão psicológica em cima dos trabalhadores, com ameaças de se mudar a produção para outros países se não aceitarem as condições de reestruturação produtiva.
O governo de Cristina Kirchner aplica medidas que, à primeira vista, podem parecer progressivas e que beneficiam a população em geral, como os subsídios ao transporte, luz e gás, mas, que na verdade, nada mais é do que utilizar o dinheiro do contribuinte para engordar o bolso dos empresários, pois, com o montante de dinheiro que é repassado em subsídios, o governo poderia controlar estes serviços, oferecendo, assim, mais qualidade a um custo menor à população no transporte férreo, por exemplo, que é precário e já causou diversos acidentes. O último ocorreu na estação Once, no dia 19 de outubro, com quase 100 feridos, a mesma estação onde morreram 52 pessoas em fevereiro de 2012.
E por falar em dinheiro do contribuinte, lá também se prioriza o pagamento da dívida externa e dos fundos em detrimento de oferecer saúde publica de qualidade.
Pude conhecer a luta pela absolvição dos delegados das empresas EMFER (fábrica de vagões) e TATSA (fabricante de ônibus) que foram processados pela patronal ao denunciarem um esquema de queima de documentos sobre subsídios após o acidente na estação Once em 2012. E também a luta dos trabalhadores da Alloco que lutam pelo pagamento de seus salários atrasados há 8 meses e pela manutenção de seus postos de trabalho.

PSTU Vale - O PSTU é o partido que integra a LIT-QI, fundado em 2011. Como está a campanha para o reconhecimento oficial do partido?
Alex - Apesar das dificuldades está indo muito bem. A justiça eleitoral coloca muitos empecilhos para dificultar a legalização de partidos. É muita burocracia! Para se ter uma ideia, é necessário que cada filiado assine seu nome seis vezes e tenha seu documento de identidade fotocopiado frente e verso. Isso dificulta muito as campanhas de filiação de rua, pois as pessoas geralmente estão apressadas e desistem quando olham aquele monte de cartões para assinar. E também por conta do alto índice de assaltos, são poucos os que saem com documento na rua.
Mesmo assim, conseguimos um grande número de filiações. Foram campanhas quase que diárias em várias cidades da província de Buenos Aires. Em Munro, zona norte da província, por exemplo, fizemos com um pequeno operativo uma média de 10 filiações por hora e em La Plata, aos sábados, onde girávamos um grande operativo e a campanha se estendia ao longo do dia, chegamos a quase 300 filiações.
Creio que será possível alcançar a legalização até o ano que vem e assim o partido poder apresentar seus candidatos próprios já nas eleições de 2015.