10 de setembro de 2014

Comissão da Verdade vai pedir punição às empresas do Vale que contribuíram com ditadura


10/9/2014 - Empresas da região como Embraer, General Motors, Volkswagen, Ericsson, Avibras, Philips, Rhodia e a extinta Engesa estão na lista de apoiadoras da ditadura, segundo relatório da Comissão Nacional da Verdade (CNV), e podem ser responsabilizadas judicialmente por isso.

Para a presidente da CNV, Rosa Maria Cardoso, já existe um conjunto substancial de provas sobre essa colaboração. Outras empresas nacionais e estrangeiras constam no relatório, como Monark, Caterpillar, Confab, Ford, FNV, Petrobras, Johnson, Kodak, Telesp, Villares, Embrape e Vibasa.

O relatório final da CNV deverá ser concluído em dezembro e entregue à presidente Dilma Rousseff. Inspirado na experiência argentina de punição aos envolvidos com o regime, o documento deve pedir a responsabilização judicial das empresas que colaboraram com a repressão durante a ditadura.

“A forma como os civis participaram do regime ainda é pouco conhecida e é muito interesse investigar. É preciso a judicialização dos casos. Essa responsabilidade não pode ser esquecida”, ressaltou Rosa durante um curso com a pesquisadora argentina Victoria Basualdo, que apresentou uma análise dos impactos da ditadura sobre a classe trabalhadora e o movimento sindical argentino, bem como a posterior luta por justiça.

Para Sebastião Neto, do Grupo de Trabalho Ditadura e Repressão aos Trabalhadores e Movimentos Sindicais da CNV, pesquisas no DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) de São Paulo forneceram provas de que empresas monitoravam os trabalhadores, repassavam informações para órgãos de repressão e ajudavam a elaborar a chamada “lista negra”. Essa lista era composta por trabalhadores demitidos por serem engajados na luta sindical, na resistência ao regime ou em organizações de esquerda e que não deveriam ser contratados por outras empresas.


"Tudo indica que as estatais foram usadas como laboratórios para se pensar a repressão dentro das empresas", afirmou Neto. Ele cita as 516 demissões feitas pela Petrobras entre abril e outubro de 1964.

Repressão no Vale
No Vale do Paraíba, documentos do Cecose (Centro Comunitário de Segurança) comprovam que pelo menos 25 empresas colaboraram com o regime monitorado o movimento operário da região. Segundo o Grupo de Pesquisa da Comissão da Verdade dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região (GP-CVM/SJC), trabalhadores que participavam de mobilizações tinham suas atividades vigiadas e relatadas pelas empresas aos órgãos de inteligência e repressão do governo.

Em toda região, centenas de trabalhadores da Embraer, GM, Volks, Engesa foram demitidos, amargaram anos sem emprego. Outros chegaram a ser presos e sofreram tortura. Com muita mobilização, parte desses trabalhadores já recebeu anistia do governo, em uma luta que ainda continua.

“A ditadura no Brasil acabou, mas os torturadores e seus mandantes permanecem impunes por todas as atrocidades que cometeram. Um acerto de contas só será possível com a responsabilização criminal por esses crimes. É possível fazer, basta o governo querer”, avalia Luiz Carlos Prates, o Mancha, representante da Comissão da Verdade dos Metalúrgicos e dirigente da CSP-Conlutas.