11 de dezembro de 2014

O racismo mata: aqui, nos EUA, na África e em todo lugar

11/12/2014  -Por Wilson H. da Silva*

Em uma mesma semana, vimos dois exemplos absurdos de como o racismo ainda é uma realidade cruel nos Estados Unidos. Exemplos que, em tudo, fazem lembrar a situação de genocídio da juventude negra, que também vivemos aqui no Brasil.

Representantes da “justiça” de Ferguson e Nova York, decidiram não indiciar judicialmente (ou seja, não mover nenhum tipo de processo) os policiais que assassinaram o jovem Michael Brown e Eric Garner. Brown foi morto por Darren Wilson, com nada menos do que seis tiros a queima-roupa. Garner, assim como nosso Amarildo, era pai de seis filhos e foi asfixiado por outro policial, Daniel Pantaleo, enquanto suplicava pela vida dizendo “eu não estou respirando”.

Os episódios – assim como o do jovem Trayvon Martin, assassinado em 2012 – colocaram em evidência o “racismo institucional” que corre solto no país hoje dirigido por seu primeiro presidente negro, Barack Obama. Forças policiais, sistema judiciário, escolas, acesso a saúde e tudo mais ainda são contaminados por uma violenta segregação. Uma situação que cada vez mais lembra o pior exemplo de racismo praticado pelo Estado: o aparheid.

O jornal The New York Times publicou recentemente uma série de artigos buscando responder à pergunta “Para onde vamos depois de Ferguson?”. Uma das matérias foi escrita pelo Nicholas Kristof, que apresentou dados aterradores: proporcionalmente, hoje, há mais negros encarcerados nos EUA do que durante o pior período do regime segregacionista sul-africano, nos anos 1970.

Assim como tudo que se refere à opressão, esta situação tem tudo a ver com a exploração: a desigualdade social entre negros e brancos é maior nos EUA da Era Obama do que na África do Sul dos anos 70, onde, diga-se de passagem, o mergulho da Aliança Tripartite formada pelo Congresso Nacional África, o Congresso de Sindicatos Sul-Africanos e Partido Comunista, no neoliberalismo, faz com que a situação também seja semelhante aos tempos do apartheid, como temos noticiado, e a violência generalizada e exploração sempre racista, faz com a expectativa de vida dos brancos seja, hoje, de 71 anos, enquanto a dos negros seja de 48; ou seja, 23 anos a menos.

A praga do genocídio da juventude negra
Essa situação faz com que nos Estados Unidos o “racismo institucional” impulsione a discriminação para todos os cantos, inclusive o genocídio da juventude negra, como é destacado em outro artigo publicado na edição do jornal nova-iorquino pelo professor de sociologia Michael Eric Dyson, da Universidade de Georgetown: há tentativa de se desumanizar a vida dos negros americanos”.

O que, ainda segundo o professor, faz com que no país de Obama haja uma “praga de policiais brancos matando jovens negros desarmados, tendiosa e doentiamente repetitivos”, o que resulta num verdadeiro genocídio, ainda mais assustador porque negros e negras correspondem a praticamente um décimo dos brancos, compondo 12% da população.

O fato de Obama, que lamentavelmente, apesar do blá-blá-blá e da propaganda, não atacar a exploração (aliás, promovê-la) impulsiona o racismo contra seus irmãos e irmãs. Segundo Dyson, “Obama celebra o progresso racial que diz ter testemunhado em ‘seu tempo’, como se sua história, suas conquistas, fossem nossas também (…) nossas vitórias políticas em sua presidência seram menores do que nosso sofrimento persistente e diário”. Uma percepção cada vez mais generalizada, principalmente depois das declarações pra lá de amenas que o presidente fez em relação aos mais recentes crimes racistas cometidos pelos policiais.

O EUA, a África e o Haiti também são aqui
Na mesma edição da Carta Capital, segundo Atila Roque, da Anistia Internacional, apresentou dados tão aterradores quando aos dos EUA. A violência generalizada provocada pela miséria e a decadência neoliberal está por trás de um número cujo absurdo é inominável. Aqui, em 2012, são assassinados nada menos que 82 jovens por dia, ou seja, 30 mil pessoas. O que faz com que no Brasil tenha sido mortas mais pessoas do que nas doze maiores zonas de guerra do mundo.

Mas, assim como nos EUA, o racismo faz com que a possibilidade do morto ser negro é incomparável. Somos 77% das vítimas da violência. E, da mesma forma que o falatório vazio e hipócrita de Obama, a situação só piorou nos governos do PT: quando Lula foi eleito, em 2002, o índice de vitimização negra era 42,9% – isto é, nesse ano morreram proporcionalmente 42,9% mais negros que brancos; já em 2011, o índice chegou a inaceitáveis 153,4%. Neste mesmo período, houve uma queda de cerca de 25% no assassinato de jovens brancos, já o de negros subiu mais de 30%.

Nossa luta é internacional
Como sempre dizemos, as correntes do racismo se confundem com as raízes podres do Capitalismo. Nasceu no momento em que a burguesia se apoiou no lamentável período da escravidão para acumular o Capital e começar sua caminhada ao poder.

Foi pra isso que a burguesia criou os estereótipos racistas, como lembra o historiador marxista, no livro “Capitalismo e Escravidão”: “Eis aqui, a origem da escravidão negra. A razão era econômica, não racial; isto não tinha a ver com a “cor” da mão-de-obra, mas como o fato dela ser barata. (…) O aspecto físico dos homens, seu cabelo, sua cor e dentição, suas características “subumanas” tão alardeadas, foram apenas racionalizações posteriores utilizados para justificar um fato econômico simples: as colônias precisavam de mão-de-obra”.

Esses estereótipos basearam-se em grande medida na “animalização” e “coisificação” dos negros e negras. E animais são abatidos e coisas, descartáveis. Por isso, não é um acaso que o genocídio e as desigualdades sem limites iniciadas com o tráfico negreiro continuem matando nossos irmãos e irmãs na África, nos Estados Unidos e todo continente americano, no Haiti e resto do Caribe e na Europa. Esse sofrimento nasceu com a Diáspora, um projeto internacional que nos espalhou pelo mundo.

Assim, da mesma forma que o Capitalismo impõe seus planos de exploração e fome internacionalmente, apoiados no racismo, nossa luta só pode ser internacional. A Rede de Solidariedade que a ajuda a impulsionar em vários países e todas demais iniciativas internacionais da Central não menosprezam este fato. E tem que ser assim.

Do mesmo jeito que o Capitalismo utiliza todas as suas instituições para promover o racismo; os trabalhadores, a juventude, o movimento popular e de luta pela terra, LGBT’s e mulheres têm que colocar as nossas entidades pra combatê-lo e destruí-lo, até que construamos uma sociedade igualitária, sem opressão e exploração. Um Quilombo Socialista, igualitário e que garanta condições dignas de vida e o próprio direito a viver para todos oprimidos e explorados.


Por Wilson H. da Silva, do Quilombo Raça e Classe e da Secretaria Nacional de Negros e Negras do PSTU

Publicado originalmente no site da CSP-Conlutas