24 de agosto de 2015

Greve na GM anula demissões e mostra o caminho: é preciso unificar a luta em defesa dos empregos

  1. Foto: Sindmetalsjc/Tanda Melo
24/8/2015 - Em assembleia, nesta segunda-feira, dia 24, os trabalhadores da GM de São José dos Campos aprovaram o acordo que anula as 798 demissões que haviam sido feitas pela montadora na véspera do Dia dos Pais. Pela proposta, os trabalhadores entrarão em lay-off por cinco meses (suspensão temporária do contrato de trabalho).

O acordo, negociado em audiência de conciliação no Tribunal Regional do Trabalho de Campinas, na sexta-feira, dia 21, foi aprovado por unanimidade por cerca de 4.000 trabalhadores presentes à assembleia. A suspensão das demissões acontece quase duas semanas depois do início de uma das mais longas greves já realizadas na empresa. Foram 12 dias de paralisação.

Os trabalhadores que haviam sido demitidos serão colocados em licença-remunerada até o início de setembro, quando começará o lay-off, que se estenderá ate fevereiro de 2016. Ao final do afastamento, se houver demissões, a GM terá de pagar uma multa de quatro salários para cada trabalhador (veja mais detalhes abaixo).



Vencemos uma batalha. A guerra segue
Ao longo dos últimos 12 dias, os trabalhadores da GM protagonizaram uma das maiores mobilizações já realizadas na montadora. Não só porque a greve encerrada é uma das mais longas realizadas na empresa, mas pela unidade e disposição de luta demonstrada pelos metalúrgicos.

A repercussão da paralisação se estendeu por todo o país e até internacionalmente. Declarações de apoio e solidariedade vieram de vários sindicatos das mais diversas categorias, de dentro e de fora do país.

Como há muito tempo não se via, familiares dos demitidos se engajaram na luta, participando de assembleias na fábrica e de mobilizações, como a passeata no dia 14 que reuniu cerca de duas mil pessoas.

Os metalúrgicos demitidos se envolveram diretamente na mobilização durante todo o tempo, num incontestável exemplo da capacidade de auto-organização da classe operária.

Entre os trabalhadores, a certeza de que lutar vale a pena e de que foi a mobilização que conseguiu reverter as demissões é geral. Os metalúrgicos também têm consciência de que a luta para garantir os empregos não acabou, como afirmaram os próprios dirigentes do Sindicato dos Metalúrgicos de São José e região, filiado à CSP-Conlutas.

 “Conseguimos evitar a demissão da forma violenta que a empresa queria impor. E isso só foi possível por que a gente não abaixou a cabeça e fomos à luta por nossos direitos. A sensação é de alívio. Mas sabemos que essa foi apenas uma batalha. A guerra segue”, avaliou João*, um dos trabalhadores demitidos.

Nunca tinha participado de um movimento como esse. Minha cabeça mudou totalmente. Nós conseguimos reverter as demissões. Foi um movimento muito forte e sabemos que essa luta não acabou, pois a GM vai continuar chantageando e tentando demitir”, disse Pedro*, outro trabalhador que havia sido demitido.

Eu não fui demitido. Mas já fiz parte de outro lay-off. Aqui tá todo mundo no mesmo barco e se não lutarmos, ninguém vai garantir nossos empregos”, afirmou o metalúrgico Luiz*.

Foto: Sindmetalsjc/Tanda Melo
O presidente nacional do PSTU, Zé Maria, participou da assembleia e denunciou o governo Dilma/PT, que ao invés de tomar medidas para defender os empregos dos trabalhadores, está dando mais dinheiro público às montadoras que estão demitindo.

Essa situação de demissões que assistimos hoje no país é resultado não só da ganância de lucros das multinacionais, mas também da política do governo Dilma. Em meio a essa greve da GM e demissões em todas as montadoras, a presidente Dilma mandou o Banco do Brasil e a Caixa darem mais R$ 9 bilhões às montadoras. Daria para pagar três anos de salário dos cerca de 25 mil trabalhadores que hoje estão com os empregos ameaçados nas montadoras. Mas, Dilma não fez por que governa para os banqueiros e grandes empresas”, denunciou Zé Maria.

Na assembleia desta segunda, os metalúrgicos da GM aprovaram um chamado aos trabalhadores, sindicatos e centrais sindicais das bases das demais montadoras para unificar a luta contra as demissões. A Volks de Taubaté segue paralisada desde o último dia 17 e os trabalhadores da Mercedes, no ABC Paulista, aprovaram greve por tempo indeterminado nesta segunda, dia 24.

Essas demissões que estão acontecendo pelo Brasil afora mostram a necessidade de uma luta unificada de toda a classe trabalhadora. Uma greve geral nas montadoras para acabar com as demissões e os ataques aos direitos e exigir do governo Dilma medidas que, de fato, garantam emprego”, afirmou o dirigente da CSP-Conlutas, Luiz Carlos Prates, o Mancha.

Para o presidente do PSTU de São José dos Campos e suplente de deputado federal Toninho Ferreira a luta dos metalúrgicos da GM mostra o caminho que deve ser trilhado.

Através da luta e da organização é possível barrar as demissões. Essa greve, que teve vários exemplos de solidariedade e unidade, como o apoio votado à greve da Volks em Taubaté, deve servir de exemplo para unificar a luta nas montadoras para barrar as demissões e exigir do governo Dilma a estabilidade no emprego”, avalia Toninho, que já foi ex-presidente do Sindicato e participou das negociações.

Conheça os detalhes do acordo:

1- Cancelamento das 798 demissões e lay-off pelo período de cinco meses;
2- Licença remunerada, retroativa ao dia 10 de agosto, para os trabalhadores que entrarão em lay-off.
3- Discussão com o Sindicato sobre o plano de aposentadoria;
4- Abertura de um Programa de Demissão Voluntária (PDV) em toda fábrica. Cada adesão resultará no abatimento do número de excedentes considerado pela companhia;
5- Os trabalhadores em lay-off também terão direito a 13º salário, reajuste salarial na data-base, convênio médico e segunda parcela da PLR;
6- A empresa se compromete em não fazer nenhuma retaliação aos grevistas;
7- Nenhum desconto dos dias em greve. Metade dos dias parados será arcada pela empresa. O restante será compensado pelos trabalhadores;
8- Se o trabalhador afastado pelo lay-off preferir, poderá ser desligado antecipadamente, recebendo o valor relativo aos cinco meses de lay-off (parte paga pela empresa, equivalente à diferença entre o salário e bolsa-qualificação) mais os quatro salários de indenização. Neste caso, o trabalhador terá direito a cinco parcelas do seguro-desemprego;
9- Ao fim do lay-off, se houver demissões, pagamento de indenização de quatro salários nominais para cada trabalhador.