25 de abril de 2014

Em audiência, especialistas e trabalhadores denunciam epidemia de acidentes e doenças do trabalho

25/4/2014 - O custo final é a vida humana. Dessa forma, especialistas e dirigentes sindicais denunciaram os efeitos da reestruturação produtiva sobre a classe trabalhadora, vítima de um número cada vez maior de acidentes e doenças do trabalho em todo o mundo.

O quadro alarmante foi apresentado durante a audiência pública “Basta de Mortes no Trabalho”, realizada na quarta-feira, dia 23, na Câmara Municipal de São José dos Campos.

Organizado pelo Fórum de Lutas do Vale do Paraíba, que reúne dezenas de entidades sindicais de várias categorias, o evento é uma das atividades para marcar a data de 28 de abril - Dia Mundial em Memória das Vítimas de Acidentes e Doenças do Trabalho.

Estiveram presentes ativistas e trabalhadores metalúrgicos, da indústria da alimentação, de indústrias químicas, construção civil, Correios, petroleiros, cozinhas industriais, servidores municipais de Jacareí e de São José dos Campos, servidores do CTA e do Inpe, técnicos em radiologia, Oposição dos Condutores, professores da Oposição Alternativa da Apeoesp, Movimento Mulheres em Luta, advogados (as), aposentados, CSP-Conlutas e setores da CUT.

Como palestrantes participaram o juiz da 4ª Vara de São José dos Campos, Marcelo Garcia Nunes, a gerente do Creso (Centro de Referência Especializada em Saúde Ocupacional do Vale do Paraíba), Reiko Hoyer, a socióloga e docente da Universidade Metodista de SP, Luci Praun, e o Chefe da Seção de Saúde do Trabalhador do INSS de São José dos Campos, Enrico Supino.

Uma situação alarmante, uma luta necessária
Foram cerca de três horas de debate. Ainda na abertura, João Rosa, dirigente do Sindicato das Indústrias Químicas de São José e região, lembrou que por muito tempo a luta em defesa da saúde e segurança do trabalhador foi abandonada pelo movimento sindical.

Nos últimos anos passamos por profundas mudanças nos locais de trabalho, que aumentaram o ritmo de trabalho e a pressão sobre os trabalhadores. Hoje o movimento não pode pensar apenas na luta econômica, em salário e PLR. É preciso preservar a saúde e a vida dos trabalhadores, que estão morrendo”, alertou o sindicalista.

O juiz Marcelo Garcia iniciou sua fala dando uma informação sobre a realidade nos tribunais. “Realizamos (na Vara do Trabalho) entre 12 e 15 audiências por dia. Pelo menos, três processos são de acidentes de trabalho”, disse.

Infelizmente, o que podemos ver é uma epidemia de doenças. A tecnologia e a robotização não têm sido utilizadas a favor do ser humano. Hoje, o trabalhador é mensurado por números e produtividade”, lamentou o magistrado.

Trazendo os números de atendimento do Creso, a engenheira de segurança do trabalho Reiko Hoyer, também revelou a gravidade da situação na região.

Nos últimos dois anos, foram 10.603 casos de acidentes e doenças do trabalho registrados pelo órgão. Foram 5.440 casos em 2012 e 5.163 registros em 2013. Ainda assim, Reiko assinalou que os dados não são a expressão fiel da realidade, pois admitiu que existe muita subnotificação, ou seja, casos que não são encaminhados pelas empresas.

Dos 10.603 casos, 21% foram doenças do trabalho (2.225). Destas, 1.760 (79%) são LER - Lesões Por Esforços Repetitivos. Em dois anos, foram registradas 14 mortes no trabalho, sendo 9 em acidentes de trajeto e 5 em acidentes típicos.

O chefe da Seção de Saúde do Trabalhador do INSS de São José dos Campos, Enrico Supino, ressaltou a necessidade da prevenção e disse que o INSS não tem “perna” para vistoriar tudo. “Se houvesse prevenção não se chegaria a atual situação. Os problemas deveriam ser prevenidos no local de trabalho”, disse.

A GM fabrica lesionados
A socióloga Luci Praun, que concluiu recentemente sua tese de doutorado com uma pesquisa sobre os efeitos da reestruturação produtiva na GM sobre a saúde do trabalhador, expôs uma situação dramática.

A docente ouviu relatos de vários trabalhadores, analisou milhares de dados e constatou um quadro de assédio moral, ritmo de trabalho alucinante, pressão da chefia. “Longe de serem casos isolados, apenas em São José, podemos verificar que os ataques contra os trabalhadores lesionados é uma política corporativa da GM”, denunciou.

Há absurdos como um caso de um trabalhador com dedo mutilado e a GM não deu afastamento. A montadora não reconhece nenhuma CAT de doença do trabalho, alegando por exemplo que se o médica da empresa não considera que é uma doença do trabalho, então não existe. Ela faz tudo isso por um motivo: para reduzir o imposto do FAP (Fator Acidentário de Prevenção)”, avaliou.

"Hoje, no capitalismo, a frase tempo é dinheiro tornou-se uma regra máxima dentro das fábricas. As empresas estão eliminando a limites absurdos os tempos de repouso, tornando a vida do trabalhador insuportável”, disse.

Para Luci, a causa está na reestruturação produtiva implementada pelas empresas, que está formando uma legião de trabalhadores lesionados. “Estão formando uma legião de pessoas incapazes para o trabalho. É um gravíssimo problema social que o movimento sindical tem de tomar como uma luta prioritária”, defendeu.

Os ataques do governo
Os participantes da audiência também puderam falar e relataram a dura realidade dos trabalhadores, seja na iniciativa privada ou no serviço público.

Além do assédio moral nas empresas, dirigentes sindicais, cipeiros e trabalhadores falaram dos ataques do próprio governo. Foram relatadas, por exemplo, a omissão da DRT (Delegacia Regional do Trabalho) na fiscalização de empresas, os problemas encontrados no INSS, como as altas a trabalhadores sem condições de trabalho ou recusa de benefícios como o B91(auxílio-doença acidentário) e a própria politica de privatização e sucateamento da Previdência.

O fato é que para as empresas e os governos, os trabalhadores são apenas números, peças que eles podem trocar assim que estragar. Por isso, não têm preocupação com a saúde e segurança do trabalhador, não há investimento. A sociedade é montada para favorecer e atender os empresários. Por isso precisamos nos unir e lutar contra esse sistema e por fim a seus ataques”, disse o dirigente regional da CSP-Conlutas do Vale do Paraíba, Renato Bento Luiz, o Renatão.

Dia 28 é dia de luta
O dirigente da CSP-Conlutas, Joaquim Aristeu, que coordenou a mesa do evento, lembrou ao final que as atividades para marcar a luta contra os acidentes e doenças do trabalho prosseguem na próxima segunda-feira.

As entidades do Fórum de Lutas programam uma manifestação na DRT (Delegacia Regional do Trabalho), em protesto contra a falta de fiscalização do órgão nas empresas da região.

Os sindicatos também aprovaram a participação na palestra “Assédio moral nas relações de trabalho”, que acontecerá na segunda-feira, ás 19h, no plenário Mário Scholz da Câmara Municipal de São José dos Campos, com a presença de desembargadores do TRT de Campinas.