27 de março de 2014

Ato unitário debate os 50 anos do golpe militar e a colaboração das empresas

27/3/2014 - Aconteceu nesta quarta feira, dia 26, a primeira audiência pública da Comissão da Verdade do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e região. O evento foi em parceria com a Comissão da Verdade da Câmara Municipal e foi impulsionado por diversas centrais sindicais do país, especialmente pela CSP-Conlutas.

Realizado no plenário da Câmara, o ato unitário “50 anos do golpe militar: a perseguição e resistência dos trabalhadores” teve casa cheia e contou com a participação de anistiados políticos, ativistas dos movimentos sociais, militantes de organizações de esquerda e diversos jovens e estudantes.

Na parte da manhã ocorreu um ato onde em que foi lembrado os 50 anos do golpe civil militar no Brasil, que inaugurou mais de duas décadas de perseguições, mortes, torturas e instalou no país uma ditadura contra as organizações dos trabalhadores e estudantes.

A mesa do evento foi composta pela presidente da Câmara, a vereadora Amélia Naomi, o prefeito Carlinhos Almeida (PT), os representantes da Comissão da Verdade Nacional (CNV), Sebastião Neto, e Estadual, Rafael Martinelli; Toninho Ferreira, da Comissão da Verdade dos Metalúrgicos de São José dos Campos; Luiz Carlos Prates, o Mancha, em nome da CSP-Conlutas; além de representantes de outras centrais como Intersindical, CUT, Força Sindical, Nova Central e UGT.

Na parte da tarde foram ouvidas mais de uma dezena de perseguidos políticos, que deram seu depoimento sobre a perseguição do regime e foram unânimes em apontar a existência de uma lista suja (chamada “lista negra”) na região criada pelas empresas.

Essa listagem incluía os nomes dos “agitadores”, ou seja, aqueles ativistas (homens e mulheres) que se organizavam para defender os direitos dos trabalhadores e era acessada pelas principais empresas da região. Os que ali constavam não conseguiam emprego, pois tinham seus nomes ligados à organização da luta da classe trabalhadora.

Foram ouvidos alguns militantes da ex-Convergência Socialista que militaram à época em nossa região, como Ernesto Gradella e Toninho Ferreira.

Gradella, ex-vereador e ex-deputado federal, também falou sobre a articulação entre militares e empresários para perseguir trabalhadores. “Após minha demissão da Metalúrgica Fi-El, fui procurar trabalho na Engesa. Lá, me pediram atestado de antecedentes do Dops e Deic (Departamento Estadual de Investigação Criminal). Por sorte consegui entrar. Comecei a trabalhar na segunda-feira e, na sexta, fui demitido porque descobriram quem eu era”, contou, referindo-se à presença de seu nome na “lista suja” que circulava entre as empresas.

O destaque ficou para a intervenção emocionada da companheira Maria Inês de Oliveira, ex-operária que declarou ter passado necessidades, ela e sua filha, durante o período, sendo forçada a mudar de casa diversas vezes para fugir da repressão e, por constar na “lista negra”, não ficava mais de 30 dias em cada fábrica. "Era perseguida também por ser mulher, operária e negra", afirmou.

Falaram ainda outros ativistas como João Batista dos Santos, Ari Russo (ex-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos), João Batista de Souza (JB), Edemir de Paula (Passarinho), José Luiz Gonçalves (ex-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos), João Bosco da Silva, entre outros.

Um dos momentos mais esperados do dia ficou por conta do diretor do Sindicato dos Metalúrgicos e integrante do GT de Trabalhadores da Comissão da Verdade Luiz Carlos Prates, o Mancha. Em seu depoimento, ele apresentou os primeiros resultados das pesquisas da Comissão do Sindicato: documentos oficiais e relatórios trocados entre os órgãos de investigação e repressão, Marinha, Exército e Aeronáutica e as empresas da região, comprovando a troca de informação e a estreita colaboração entre os empresários e a ditadura, tanto no financiamento quanto na identificação dos ativistas.

Foi descoberto um grupo de colaboração (CECOSE - Centro Comunitário de Segurança do Vale do Paraíba) que se reunia mensalmente nas instalações de alguma empresa, inclusive da Petrobrás e da ex-estatal Embraer, com a participação de funcionários da ditadura e empresários a fim de trocar informações, garantir o financiamento das perseguições e torturas e manter vivo o canal de interlocução entre os agentes oficiais e os empresários financiadores do regime.

Mancha destacou também a ligação entre as práticas do antigo regime de exceção e a atual criminalização dos movimentos sociais e lutadores. “Num momento em que o país passa por enormes lutas e manifestações, os governos desencadeiam uma ofensiva bonapartista para tentar frear as lutas, aos moldes do governo ditatorial”, disse.

Mancha terminou seu depoimento lembrando que a ditadura não acabou nas fábricas, que vigiam e perseguem aos ativistas, e defendeu a imediata punição aos agentes e aos financiadores do regime.

Memória, verdade, justiça e reparação
A data foi marcada por muita emoção e reencontros entre os presentes e manteve viva a memória e a necessidade de punição aos criminosos da ditadura civil militar brasileira.

Segundo Toninho, a criação das comissões da verdade pelos sindicatos tem tido uma importância fundamental. “Tem sido muito importante o trabalho das comissões, pois, do contrário, muitos fatos ocorridos no regime ainda seriam desconhecidos. Precisamos conhecer o passado para preparar o futuro, principalmente por que lamentavelmente parte da estrutura de repressão montada pelos militares ainda continua atuando. Hoje, contra os manifestantes e ativistas sociais que tomam as ruas”, disse.

Ao final das atividades, o Sindicato ofereceu um coquetel, onde se encontraram ex-ativistas e atuais lutadores dos movimentos sociais, em uma troca de experiências que faz avançar a consciência e reafirmar a necessidade de memória, verdade, justiça e reparação!

Para não esquecer, para nunca mais repetir! Ditadura nunca mais!

Por Edgar Fogaça